domingo, 1 de junho de 2014

Ambev terá de provar ao Conar que edição especial da Brahma tem cevada da Granja Comary

Plantação de cevada da Brahma na Granja Comary, segundo a Ambev 
O jornalista e blogueiro Juca Kfouri tem fama de polêmico. No futebol. Foi algoz da CBF, em especial de Ricardo Teixeira, durante décadas. Sempre fiscalizou com rigor – e competência – os desmandos dos cartolas do futebol brasileiro. Agora, corajosamente, Juca Kfouri foi além das quatro linhas e ingressou num mercado igualmente gigantesco e cheio de interesses: o setor de bebidas. Em seu blog no UOL, Kfouri postou uma nota que atiçou todos os cervejeiros do país, o 17º que mais consome brejas no mundo, com 62 litros per capita.

Depois da avalanche de propagandas na TV, a maioria em horário nobre, sobre a edição especial da cerveja Brahma Granja Comary, que contava a história do plantio de cevada no local de treino da seleção brasileira, Kfouri relatou sua peregrinação, sem sucesso, durante dois dias e meio, em busca das plantações de cevada na região.

“Eu via na TV e, como gosto de uma cervejinha, tratei de procurar a plantação de cevada na Granja Comary. Tomei chuva hoje pela manhã, procurei, investiguei, perguntei aos companheiros se alguém tinha visto, pedi aos funcionários da Granja que me orientassem e a conclusão é desoladora: a tal cerveja especial anunciada não é feita com cevada da Granja Comary”, escreveu o jornalista no último dia 28 de maio. Veja o texto completo aqui.

Kfouri foi além: “Alguém me disse que nem com cevada é, mas não acreditei, porque na garrafa diz que tem cevada e eu sou um cara de boa-fé. Sim, também sei que a propaganda vive de metáforas, mas não precisava exagerar.”

> Técnico Luiz Felipe Scolari posou com enxada 
e tudo na lavoura de cevada na Granja Comary
Estas poucas e certeiras frases provocaram um terremoto na Ambev, segundo o próprio jornalista. A empresa teria recebido pedidos de indenização por parte de clientes e de devolução de mercadoria por parte de supermercados. Kfouri ironizou: “Definitivamente, o mundo perdeu o senso de humor e, cá entre nós, é rigorosamente desimportante saber de onde vem a cevada, a não ser como criação publicitária.”

Brincadeira ou não, a coisa ficou séria.

O Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) abriu investigação, a partir de denúncia de um consumidor que pede a comprovação da fonte do ingrediente. O processo, em que a Ambev deverá mostrar provas de que a informação veiculada em anúncios e no rótulo da embalagem é verdadeira, será julgado no próximo dia 5 de junho. A publicidade do produto poderá ser suspendida e a empresa terá de pagar multa, caso não comprove a origem anunciada da cevada.

Nada tão pesado quanto o amargo sabor da dúvida e da suspeita, levantada em tantas mesas de bar Brasil afora. Mesmo antes do Juca Kfouri abrir o debate nacional.

A Brahma nega as acusações e diz que o cultivo de cevada na Granja Comary pode ser comprovado por diversos documentos e fotos. A empresa garante que “a plantação aconteceu no período de reformas da Granja Comary. Foram 6 meses de plantação, com o plantio das sementes começando em meados de 2013 e colheita da cevada no começo de janeiro de 2014. O cereal foi beneficiado, transformado em malte e utilizado na produção da cerveja. Se hoje não há cevada na Granja Comary é justamente porque o cereal foi usado no lote limitado que já está à venda desde abril no Brasil inteiro.

Qualquer pessoa minimamente informada sobre o processo de produção de cerveja duvida da Ambev. Não que não tenha sido plantada cevada no local. A questão é que deve ter sido um cultivo em uma área infinitamente menor do que a necessária para abastecer milhares de garrafas vendidas no país todo – motivadas por uma robusta campanha publicitária. O que todos imaginam é que tenha sido uma plantação para servir de cenário – justamente para o comercial.

> Kit com cerveja e taça custa R$ 189,00
Provei a cerveja. Não tem nada demais. É um pilsen um pouco (bem pouco!) mais encorpada. Não vale os R$ 9,90 pela garrafa de 473ml. O kit especial, com apenas 2014 garrafas numeradas e assinadas pelo Felipão junto à taça exclusiva, custa R$ 189,00. A embalagem é muito bonita: a garrafa é de alumínio preta com detalhes em verde e amarelo, sem o tradicional vermelho usado pela Brahma, patrocinadora da Fifa.

O problema é o conteúdo. E, claro, a “falsa” propaganda. Seja qual for o resultado prático, o estrago de imagem está feito para a Brahma. É o que dá misturar duas paixões do brasileiro: cerveja e futebol. Com uma dose extra de presunção.


Um comentário: