domingo, 27 de abril de 2014

O erro de São Paulo? Confira os bastidores do anunciado "Julgamento de São Paulo"!

> Evento gerou polêmica em São Paulo

Em tempo de Copa do Mundo no Brasil, empate em casa é derrota. Esta é uma máxima do futebol que pode ser usada para resumir o Panorama dos Espumantes do Hemisfério Sul, promovido pelo Ibravin (Instituto Brasileiro do Vinho), nesta sexta-feira (25/04), em São Paulo, com a condução do renomado crítico britânico Steven Spurrier. Isso porque nas duas categorias de espumantes avaliadas – Tradicional e Charmat – ocorreu a vitória do Brasil na primeira e, na segunda, surpreendentemente, a Nova Zelândia ficou no topo. Veja o resultado aqui

Não dá para esconder que o resultado surpreendeu, sim. Tanto que o sisudo Spurrier, com seu humor inglês, comentou: “Sorte que eles [a Nova Zelândia] não são bons nem no futebol nem no marketing de seus espumantes”. Mas seria pior se Argentina ou Chile – com forte presença no mercado brasileiro – tivessem conquistado um resultado melhor. Dos males, o menor.

Mas foi por pouco. E ficou a lição. Por que expor a reconhecida categoria dos espumantes brasileiros a um risco desnecessário? Uma degustação às cegas, todos sabem, pode provocar surpresas desagradáveis. Então, a pergunta é: por que promover uma aventura dessas já que o risco era todo do espumante brasileiro, amplamente reconhecido no mercado e pelo consumidor?

Cabe lembrar que Spurrier, em 1976, então dono de uma pequena loja de vinhos no centro de Paris (Les Caves de la Madeleine), ganhou fama internacional, quando conduziu o conhecido e histórico “Julgamento de Paris”, confrontando, em uma degustação às cegas, vinhos tintos e brancos californianos contra os melhores exemplares de Bordeaux e Borgonha. O resultado da degustação, que tinha nove juízes franceses, surpreendeu a todos: um Chardonnay (Chateau Montelena) e um Cabernet Sauvignon (Stags’Leap) da Califórnia venceram os tradicionais rótulos franceses. Esta degustação marcou uma explosão de confiança nos vinhos do Novo Mundo, graças, sobretudo, ao competente marketing norte-americano, que aproveitou o resultado em escala mundial. 

Surrealismo
Se não fosse o Ibravin ter contratado Spurrier por 2 mil libras, eu pensaria que o crítico inglês tinha vindo ao Brasil fazer o “Julgamento de São Paulo” a pedido de argentinos ou chilenos! Afinal, as semelhanças são espantosas. É como se os argentinos convocassem Spurrier e degustadores do seu próprio país para reafirmarem as qualidades do seu Malbec. Ou uruguaios quisessem colocar a provação os seus Tannats. Surrreal, não?

Líder de mercado com
7 em cada 10 garrafas de espumantes vendidas no mercado nacional, o Brasil não deveria desafiar quem está abaixo. Como no boxe, quem está com o cinturão de campeão é que é desafiado. Não o contrário. 

> Alertei sobre os riscos da iniciativa
Não sejamos ingênuos ou míopes, por onde quer que vá Spurrier, atualmente colunista da prestigiada Decanter, sempre haverá a expectativa de um novo Julgamento. É por isso que a imprensa brasileira especializada em vinho batizou o evento de sexta, dia 25 de abril, de o “Julgamento de São Paulo”. Mesmo sem a previsão de notas, era certo que haveria a comparação, como ocorre em qualquer degustação. Se o objetivo fosse realizar somente um panorama do espumante brasileiro, que fossem colocados à prova apenas rótulos nacionais. A comparação foi desejada. E ponto.

Fui um dos que saudou a iniciativa do Ibravin, justamente pela notoriedade e o reconhecimento que esta prova poderia trazer aos nossos espumantes – de qualidade admitida internamente –, mas praticamente desconhecidos mundo afora. O problema é que um Julgamento definitivo de nossos espumantes deveria ser feito com apenas e tão-somente duas categorias de rótulos borbulhantes – Champagnes e Cavas! Não precisa ser um gênio para ver isso. É tão óbvio como a beleza da Mariana Ximenes.

O “Julgamento de Paris” só teve a repercussão global porque contrariou a lógica, qual seja, os franceses, até o momento, eram imbatíveis contra vinhos do resto do mundo. O espumante brasileiro é superior a qualquer um do Hemisfério Sul. Isto é claro para qualquer neófito. Então, repito, por que arriscar esta reputação extremamente positiva?

Destaquei ainda a coragem do Ibravin e dos produtores verde-amarelos em propor este desafio, principalmente porque quem tinha a perder com um eventual resultado negativo seriam os próprios produtores, que, em hipótese pessimista, ou seja, vitória de rótulos de outros países, veriam a chancela de espumantes hoje praticamente desprezados pelos consumidores locais. Foi o que ocorreu, no caso dos espumantes Charmats, com a prevalência da Nova Zelândia, felizmente inexpressiva no mercado nacional.

Sei que a intenção – e por que não dizer o sonho – da ex-gerente do Wines of Brasil, Andreia Gentilini Milan, era realizar o cotejo entre os espumantes brazucas e os Champagnes. Isso não foi possível, segundo o gerente de Promoção do Ibravin, Diego Bertolini, porque Spurrier não aceitou.

Se foi assim (e não tenho motivo algum para duvidar da palavra do Diego), que a prova não fosse realizada! Ou, pelo menos, que a comunicação fosse adequada ao que seria realizado em São Paulo. Não foi o que houve. O Ibravin incentivou o caráter histórico do evento, restringindo a participação de degustadores e convidados, e não censurando as manchetes sobre a realização de um eventual “Julgamento de São Paulo”.

Então, teria ocorrido um verdadeiro “erro de São Paulo”?

Saia justa 1 – O desabafo de Deise Novakoski
Na opinião da sommelier Deise Novakoski, que atua há quase 40 anos em restaurantes, sim. Ela provocou a grande saia justa do evento, tomando o microfone no palco e desfiando uma série de críticas públicas à organização da prova. Sem ser nomeada, ela foi a porta-voz do que os demais “degustadores VIPs” (termo utilizado pelo Ibravin no convite enviado a cerca de 50 jornalistas, blogueiros e produtores), que, em sua maioria, faziam os mesmos comentários nos intervalos, à boca pequena. Só quem não conhece a Deise para imaginar que ela deixaria de dizer o que pensa. Mesmo correndo o risco de ser indelicada, como acabou sendo. E defenestrada, como certamente será.

Mas o que disse Deise? Primeiro, que sentiu falta de sommeliers brasileiros entre os “degustadores técnicos” (nomenclatura tirada do convite do Ibravin). Ela tem razão, apenas Diego Arrebola representou a categoria. Fez falta, por exemplo, alguém da ABS (Associação Brasileira de Sommeliers), a maior formadora de profissionais de serviço do vinho do país. 

A Deise tem autoridade para fazer o que fez. É uma das melhores – senão a melhor! – degustadoras de vinhos do Brasil. Além disso, é colunista de bebidas de um dos principais veículos impressos do país, o jornal O Globo. Seria justo, portanto, que estivesse entre os degustadores técnicos. O problema é que não estamos acostumados, tampouco gostamos, de ouvir críticas.

Aqui cabe registrar outra saia justa do evento.

Saia justa 2 – Jorge Lucki contrariado
Inicialmente, somente Steven Spurrier e mais quatro especialistas (Jorge Lucki, Patrício Tapia, Dirceu Vianna Jr. e Roberto Rabachino) formariam o júri técnico. Depois, o Ibravin incluiu os diretores ou editores de revistas especializadas em vinho (Adega, Menu, Baco, Prazeres da Mesa, Vinho Magazine e esqueceu da Gosto), mais o sommelier Diego Arrebola. A decisão, sugerida pelo Ibravin nos últimos dias e aceita por Spurrier, foi rejeitada por Lucki, que, contrariado, não compareceu à degustação pela parte da manhã. O jornalista do Valor Econômico foi o responsável por escolher dois rótulos brasileiros pelo método Charmat, a partir de cinco espumantes indicados pelo Ibravin.

Sobre esta escolha, pairam muitas dúvidas. Oficialmente, o Ibravin diz que os cinco espumantes Charmat encaminhados a Jorge Lucki foram escolhidos com base em rankings de revistas especializadas. [Na verdade, segundo apurei, foi utilizado o ranking do Anuário Vinhos do Brasil.] Muitas vinícolas questionaram este critério e não ficaram satisfeitas com a resposta do Instituto. Até porque, se assim fosse, dificilmente os dois espumantes que acabaram selecionados teriam chance – pois o Giacomin é praticamente desconhecido e nunca o vi em nenhum ranking de publicação especializada e o Cordelier Brut foi recém adquirido (2011) pela Vinícola Fante e também não é presença constante em revistas especializadas.

Inexplicável, por exemplo, a ausência de um rótulo da Salton, dona de quase 40% do mercado de espumantes no Brasil, a maioria elaborados pelo método Charmat. Outras vinícolas tradicionais na produção de espumantes foram lembradas pelos presentes ao evento, como Aurora, Perini, Garibaldi, Gran Legado, Peterlongo, Vallontano, Angheben, Domno, Dal Pizzol, Don Giovanni, Pizzato, Piagentini, Basso, Campos de Cima, Don Laurindo, entre outras. 

Para escapar do maior QI (Quem Indica) – um critério absolutamente aleatório – o Ibravin poderia ter solicitado amostras de todas as vinícolas interessadas em participar da prova e, aí sim, fazer uma prévia seleção para enviar ao Lucki. O colunista do Valor, aliás, não disse que impôs qualquer limite ao Ibravin para envio de espumantes Charmat. Estranho, não?

Por determinação de Spurrier, um espumante Chandon deveria estar obrigatoriamente entre os três espumantes nacionais elaborados pelo método Charmat, em função da marca internacional. Mas por que, então, o Ibravin não pediu que fossem incluídos espumantes da marca Chandon da Argentina e da Austrália? Seria uma comparação interessante.

Spurrier escolheu os três rótulos elaborados segundo o método clássico, depois de provar vários num evento que aconteceu em Londres no início de março. Ou seja, só participaram vinícolas que estiveram nesta degustação promovida pelo Wines of Brasil. Várias pequenas empresas – e até algumas integrantes do Wines of Brasil – não tiveram a oportunidade de participar.

Ausências no júri técnico
O Ibravin também falhou na montagem do júri técnico focando apenas nas revistas especializadas. Ora, a internet deve ser mais do que considerada e não custava nada ter um blogueiro entre os degustadores. O mais grave é a ausência de jornais impressos. Além da Deise (ou do Bruno Agostini), de O Globo, deveriam ter sido convidados a Alexandra Corvo, da Folha de São Paulo, e o Luiz Horta ou o Marcel Miwa, do Estado de São Paulo. Sem falar em outros críticos do Sul e do Nordeste, que deveriam ser lembrados por quem quer dar um alcance nacional às suas ações. Muita gente? Então que fosse escolhido um degustador de cada meio de comunicação (rádio, jornal, tv, revista e internet)... Ser politicamente correto também gera dissabores.

> Assim que deveria ter sido: todos no mesmo espaço, no mesmo nível, sem apartheid
Tudo poderia ter sido resolvido se os demais 50 degustadores VIPs tivessem suas notas coletadas pela organização do evento. A separação inapropriada dos dois grupos de degustadores se configurou num apartheid descabido. A degustação seria mais produtiva e interessante com todos no mesmo espaço. Não concordo com a Deise quando ela atacou o júri técnico, denunciando uma suposta falta de preparo. A palavra “acho” utilizada por alguns jurados caracteriza apenas uma força de expressão. Nada além disso.  

Às cegas?
Outra falha grave foi a degustação às cegas (sem mostrar os rótulos). De fato, não foi às cegas, porque todos sabiam o país de origem dos espumantes. É claro que isso influenciou o resultado! Argentina e Chile saíram perdendo. A proclamada falta de acidez foi a muleta de muitos jurados para desqualificar os vizinhos. Na verdade, a qualidade das borbulhas hermanas me surpreenderam. Se fosse totalmente às cegas, como deveria ser, a Argentina poderia provocar ao menos uma zebra. O Chile, não. Seus espumantes tinham um nível baixíssimo de qualidade. A questão é que a prova, peremptoriamente, não foi às cegas.

A distribuição das amostras também sofreu críticas dos presentes. Argentina e Brasil tiveram seis amostras cada um entre as 21 avaliadas. O Chile teve quatro. A África do Sul e a Nova Zelândia, duas. E a Austrália, uma. O desequilíbrio ficou evidente. O Ibravin justifica que a seleção dos espumantes estrangeiros – indicados pelas associações exportadoras de cada país – foi feita com base na disponibilidade dos produtos no mercado de São Paulo. Ora, era só substituir o indicado difícil de encontrar por outro acessível. O que não poderia ter sido feito é esta desproporcionalidade entre os países.

Na opinião pública externada por Deise Novakoski, o serviço dos espumantes foi equivocado. Ela lamentou a ausência da categoria moscatel e atacou a ordem de degustação, que misturou espumantes leves com evoluídos. O jornalista Eduardo Viotti, aliás, foi quem observou a incongruência de serem degustados espumantes evoluídos na categoria Charmat e jovens e frescos na categoria Tradicional.

O desatino atingiu até para o Mestre de Cerimônias, que cometeu inúmeras gafes no seu ofício: pronunciar nomes. Era só ter chamado o jornalista Adalberto Piotto, que estava na plateia VIP, e pronto.

Em resumo, a ideia inicial era incrível. Um “Julgamento de São Paulo” com o responsável pelo “Julgamento de Paris”, Steven Spurrier, para confrontar os espumantes brasileiros com Champagnes e/ou Cavas. Infelizmente, o projeto foi se descontruindo pelo caminho, com erros crassos de execução até alcançar o inconcebível “erro de São Paulo”. Uma pena.


P.S.: O Ibravin pediu correção deste números, dizendo que pagou um cachê de 500 libras;. Entretanto, como a fonte que informou o valor de 2 mil libras é também do Ibravin, deixo os dois valores registrados.

5 comentários:

  1. Orestes,

    O grande problema de eventos como este, na minha opinião, é a ainda organização falha. Divulgação, seleção de degustadores e de amostras, e por ai vai. Sempre existe favorecimento a um ou outro. Como você citou, será que os espumantes da Estrelas do Brasil ou mesmo Almaúnica não teriam vez?

    Não há duvida que evoluimos, mas ainda temos um longo caminho pela frente.

    Abraços,

    Victor
    www.balaiodovictor.com

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  2. Ótimo texto.
    Disse tudo que muitos dentro da degustação gostaria de dizer mais não tinha coragem.
    Parabéns!!!

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  3. Quanto mais as pessoas se intitulam menos sabem do assunto, este mundo que é tão amplo deveria ser mais direcionado aos profissionais que amam o que fazem, este texto é perfeito para entendermos que a cada ano temos mais dificuldades na área.

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  4. Parabéns pelo texto. Creio que o governo inseriu entre os responsáveis alguns infiltrados ? Que excesso de erros, rapaz....

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