quarta-feira, 9 de abril de 2014

Julgamento de São Paulo: Steven Spurrier confronta espumantes brasileiros contra cinco países do Novo Mundo

> Spurrier e Flávio Pizzato na London Fair de 2010
Um embate histórico entre os espumantes brasileiros contra as borbulhas de cinco países do Novo Mundo – Argentina, Brasil, Chile, Austrália, África do Sul e Nova Zelândia. Esta foi a proposta feita pelo Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin) para Steven Spurrier, o famoso crítico de vinhos britânico da revista Decanter. 

A ousadia foi aceita prontamente por Spurrier, que ficou conhecido mundialmente pelo histórico Julgamento de Paris, realizado em 1976, numa degustação às cegas comparando os vinhos californianos aos melhores exemplares franceses de Bordeaux e Borgonha. Esta degustação, com nove jurados franceses, surpreendeu a todos ao dar o primeiro lugar a um vinho californiano, marcando uma explosão de confiança nos vinhos do Novo Mundo. Agora, chegou a vez dos espumantes brasileiros. Não há limite para a notoriedade e o reconhecimento que esta prova pode trazer aos nossos espumantes  de qualidade admitida internamente –, mas praticamente desconhecidos mundo afora.

Atualmente, 7 em cada 10 garrafas de espumantes consumidas no Brasil são nacionais. A qualidade e a excelente relação custo-benefício são totalmente percebidas entre os consumidores. Mas a exportação ainda engatinha, com menos de 5% do total. A causa desta incongruência incrível é justamente a ausência de imagem de valor do espumante brasileiro no mundo. Que pode – e deve – mudar radicalmente a partir deste verdadeiro “Julgamento de São Paulo”. Oxalá!


Vale registrar a coragem do Ibravin e dos produtores verde-amarelos em propor este desafio. Isso porque quem têm a perder com um eventual resultado negativo são os próprios produtores, que, em hipótese pessimista (toc, toc, toc), ou seja, vitória dos rótulos do Novo Mundo, veriam a chancela de espumantes de outros países, hoje praticamente desprezados pelos consumidores locais, com repercussão direta nas vendas no mercado interno. Encarar, sem medo, esta batalha das borbulhas, é um atestado de maturidade dos vinhateiros brazucas.


É óbvio que há muito mais a ganhar... O esperado saldo positivo – com o carimbo da estirpe de Spurrier – pode e deve levar os espumantes brasileiros a serem conhecidos e vendidos em todo o planeta! É, de longe, a ação mais importante já feita pelo Ibravin em favor do setor vitivinícola brasileiro.

> Spurrier é presença constante, todos os anos, no
espaço da Lidio Carraro no estande do Wines of Brasil
HistóricoNão é de hoje que Spurrier vê com bons olhos os produtos brasileiros. Tive a oportunidade de conversar com ele algumas vezes em feiras internacionais, especialmente na London International Wine Fair, em Londres, à beira do rio Tâmisa, em 2010, 2011 e 2012. 

Na Decanter, em 2010, ele escreveu que “as vinícolas do sul do Brasil estão cheias de agradáveis surpresas”. O comentário positivo (no original, “Brazil’s southern vineyards are full of pleasant surprises”) veio após Spurrier degustar os produtos de nove vinícolas (Aurora, Basso, Casa Valduga, Lidio Carraro, Miolo, Piagentini, Pizzato, Rio Sol e Salton) presentes na London Wine Fair. No dia 18 de junho, Spurrier passou de balcão em balcão degustando os produtos das vinícolas brasileiras na feira. No dia seguinte, ele voltou para provar mais vinhos brasileiros. 
 
Na ocasião, Spurrier me disse, no estande do Wines of Brasil (então ainda chamado de Wines from Brazil), que havia gostado especialmente dos vinhos Tannat Reserva 2005, da Pizzato, e do Cabernet Franc 2007, da Salton. “Estou muito impressionado com estes vinhos, principalmente porque não são muito alcoólicos (13,2% e 13,3%, respectivamente), o que revela melhor a fruta no caso de rótulos jovens”, comentou. “Se fossem mais alcoólicos, os vinhos perderiam esta fruta. Acho que o Brasil deve continuar neste caminho de elaborar vinhos em uma faixa moderada de álcool, de 12% a 13,5%”, acrescentou. Spurrier ainda disse que os vinhos brasileiros são muito gastronômicos. “São vinhos com a proposta de acompanhar comida”, atestou. O crítico destacou o frescor dos vinhos brancos, sobretudo da cepa Chardonnay, e a qualidade dos espumantes. “Observei uma boa constância de qualidade em todos os produtos brasileiros”, afirmou.

Até então, poucos vinhos brasileiros tinham merecido a atenção de Spurrier. Os primeiros rótulos verde-amarelos destacados na Decanter por Spurrier foram da Vinícola Butique Lidio Carraro. Na época, em 2005, ele disse ter ficado bastante impressionado com os produtos da cantina do Vale dos Vinhedos (RS). Em 2009, Spurrier voltou a destacar o Lidio Carraro Quorum Grande Vindima e o Dádivas Chardonnay. Outro produtor brasileiro – o garagista Marco Danielle – ganhou críticas favoráveis de Spurrier aos rótulos Tormentas e Minimus Anima. “São ambos vinhos refinados [Minimus Anima 2005 e Tormentas Premium 2006], feitos com evidente paixão e insistente qualidade”, escreveu. 

Em maio de 2011, o crítico inglês indicou na sua coluna na Decanter o Quinta do Seival Castas Portuguesas 2008. Mais recentemente, na edição de outubro de 2013 da publicação, em quatro páginas sobre a produção brasileira de vinhos, o crítico inglês elegeu o espumante Casa Valduga 130 entre os 50 de vinhos da América do Sul abaixo de 20 libras. O Cave Geisse 1998 Brut (magnum) recebeu 95 pontos (18,5 de 20 pontos, na medida inglesa). Mais cinco rótulos foram mencionados com ótima pontuação: Lidio Carraro Grande Vindima Merlot 2005 (18/93 pts); Pizzato DNA99 2008 (18/93 pts); Lidio Carraro Dádivas Pinot Noir 2012 (17,5/91 pts); Miolo Sesmarias 2008 (17,5/91 pts); e Casa Valduga Raízes Cabernet Franc 2010 (16,5/88 pts).

> Chegou a hora de provar para o mundo a qualidade do espumante brasileiro
Como será o Julgamento de SP
O “Julgamento de São Paulo” está marcado para o dia 25 de abril, na sede da Fecomércio. Spurrier virá ao Brasil só para este evento. Chegará um dia antes e irá embora um dia depois. Foi ele quem escolheu os países que participarão da degustação, excluindo Estados Unidos, Canadá e Uruguai, legítimos representantes do Novo Mundo do vinho. Para o especialista, estes países não possuem uma produção sólida de espumantes.

Os rótulos serão divididos por método de elaboração – Charmat e Tradicional –, e por faixa de preço, com degustação às cegas por jurados escolhidos por Spurrier, acompanhados de especialistas do segmento. A sequência foi definida 
em ordem alfabética, em inglês: Argentina, Austrália, Brasil, Chile, Nova Zelândia e África do Sul. Ao final de cada rodada, os resultados serão comentados pelo crítico inglês, sem avaliação por nota. Os rótulos degustados serão conhecidos apenas no final do evento.

A escolha dos espumantes brasileiros ficou a critério de Steven Spurrier, com assessoria do jornalista Jorge Lucki, do Valor Econômico. Já os produtos dos demais países foram indicados pelas respectivas associações de representação internacional (os “Wines of”), tendo como critério de seleção rótulos disponíveis em São Paulo.


No encerramento, Spurrier traçará um panorama de cada nação com o perfil dos produtos degustados, e abordará as tendências do mercado de espumantes. A palestra será aberta ao público, com inscrições e vagas limitadas. Os painéis de degustação são voltados apenas para convidados.


Para o vice-presidente do Ibravin, Dirceu Scottá, o evento deverá reforçar a tendência do Brasil como referência mundial na produção de espumantes. “O objetivo é mostrar o perfil dos produtos de cada país e onde o Brasil está inserido neste contexto. O espumante brasileiro tem personalidade própria e qualidade que tem sido reconhecida mundialmente”, disse.


A promoção do evento é do Ibravin, com recursos da Secretaria da Agricultura, Pecuária e Agronegócio (Seapa/RS) e da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimento (Apex-Brasil) e apoio da Strauss, fabricante da taça oficial do espumante brasileiro.

Saiba quem é Steven Spurrier

Stephen Spurrier nasceu em 1941, em Londres, onde, em 1964, como estagiário, começou no comércio de vinhos. Em 1970, foi morar em Paris, tornando-se dono da Les Caves de la Madeleine, uma pequena loja de vinhos no centro da cidade que alcançou rapidamente o reconhecimento como um dos mais inovadores varejos da capital francesa. Em 1973, abriu a L’Academie du Vin Frances, uma escola privada de vinhos.

Mas sua fama internacional correu o mundo em 1976, quando conduziu o conhecido e histórico “Julgamento de Paris”, confrontando, em uma degustação às cegas, vinhos tintos e brancos californianos contra os melhores exemplares de Bordeaux e Borgonha. O resultado da degustação, que tinha nove juízes franceses, surpreendeu a todos: um Chardonnay (
Chateau Montelena) e um Cabernet Sauvignon (Stags’Leap) da Califórnia venceram os tradicionais rótulos franceses.

Em 1988, Spurrier vendeu suas empresas e retornou a Londres, onde tornou-se um consultor de vinho e jornalista. Entre seus clientes, estão a Delta Air Lines, Harrods e Hediard (Paris) e Singapura Airlines. Atualmente, é também consultor e editor da revista Decanter e presidente do Vinho Japão Challenge.


Nos últimos anos, Spurrier tem se dedicado a um novo desafio: plantou em uma propriedade de três hectares, em Dorset, na Inglaterra, cerca de 12.500 videiras, com as variedades da região de Champagne (Chardonnay, Pinot Noir e Pinot Meunier). As primeiras garrafas estarão disponíveis em 2015. 


SERVIÇO
Panorama dos espumantes do Hemisfério Sul 

Data:
25 de abril, sexta-feira            
Local: Fecomércio-SP. Rua Dr. Plínio Barreto, nº 285, bairro Bela Vista, São Paulo (SP). 

Programação

9h – Credenciamento              
9h30 – Abertura, com o vice-presidente do Conselho Deliberativo do Ibravin, Dirceu Scottá   10h – Degustação dos espumantes elaborados por método Charmat   
12h – Degustação dos espumantes elaborados por método Tradicional              
13h30 – Brunch                          
15h – Palestra sobre o mercado mundial de espumantes, com Steven Spurrier

Inscrições para a palestra
(vagas limitadas): ana@winesofbrasil.com.

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