terça-feira, 4 de março de 2014

Foda-se a Lei de Pureza Alemã! Prefiro a Amazon Beer, puramente brasileira!!!

> As cinco brejas com ingredientes da
Amazônia devidamente degustadas
Uma lei criada quando o Brasil ainda estava sendo descoberto virou dogma para os cervejeiros tupiniquins modernos. Hoje em dia, depois de cinco séculos da promulgação da celebrada Reinheitsgebot, em 1516, pelo Duque Guilherme IV da Baviera, é comum encontrarmos em qualquer prateleira garrafas de cerveja com a frase: "Elaborada conforme a Lei da Pureza Alemã". Mas o que quer dizer isso? Simples. Que a breja em questão possui tão somente água, malte e lúpulo (além de fermento, claro). 

Criada para garantir a qualidade da cerveja mas sobretudo para controlar seu preço, visto que limitava a inclusão de outros ingredientes pelos produtores, a Lei de Pureza Alemã ainda garantia que grãos escassos e mais valiosos - como o trigo e o centeio - não fossem desviados da fabricação do pão para a cerveja. 


Atualmente, porém, qual a necessidade de aplicação de uma lei tão simples como esta? Infelizmente, muita, já que o Brasil, 3º maior produtor de cerveja do mundo, com 86,7 bilhões de litros comercializados por ano, é o país que mais desrespeita esta combinação rudimentar de ingredientes para a elaboração de uma boa birra.  


Milho ao invés de malte de cevada
No final de 2012, um artigo científico publicado no Journal of Food Composition and Analysis, assinado pela bióloga Sílvia Mardegan, demonstrou que as cervejas mais vendidas por aqui, ao invés de malte de cevada, possuem milho. Foi como colocar água no chope da indústria brasileira de cerveja, uma das maiores e mais concentradas do mundo.


A revelação dos pesquisadores 
orientados pelo cientista Luiz Antonio Martinelli, do Centro de Energia Nuclear da Agricultura da USP de Piracicaba, mostrou que marcas como Antarctica, Bohemia, Brahma (inclusive a Extra), Itaipava, Kaiser, Nova Schin e Skol usam como ingrediente “cereais não maltados”, ou seja, milho ao invés de malte puro!  
[Veja detalhes na imagem ao lado.] 


Tudo de acordo com a legislação brasileira, que autoriza a substituição de até 45% do malte de cevada por outra fonte de carboidratos mais barata. Nos EUA e no Canadá, por exemplo, o limite é 30%.


Nem vamos mencionar que cerca de 90% do milho produzido no Brasil é transgênico, com consequências para a saúde humana ainda não totalmente esclarecidas pela ciência. 


Deve-se registrar ainda que algumas marcas celebradas pelos consumidores brasileiros, como a americana Budweiser, a argentina Quilmes, e as uruguaias Patricia e Norteña, também usam este artifício. É a Pilsen nossa de cada dia, segundo as empresas, "adaptada ao gosto do consumidor brasileiro", como se os cervejeiros pedissem por menor qualidade!


É por isso que estampar no rótulo de uma cerveja que ela segue a Lei de Pureza Alemã dá tanto ibope junto a consumidores minimamente informados. É claro que, só isso, não garante a qualidade de uma cerveja. As escolas belga, inglesa e norte-americana - de enorme reputação - estão aí para comprovar que a inclusão de outros ingredientes além do malte, do lúpulo e da água podem gerar brejas de alto quilate. Desde que os ingredientes utilizados sejam de boa qualidade e a mão do cervejeiro seja calibrada. 


É aí que quero chegar. Os cervejeiros brasileiros - em sua quase totalidade - têm se comportado como macacos. Digo isto porque a prática por aqui tem sido a de imitar as receitas clássicas das escolas cervejeiras alemã (na sua imensa maioria), além da belga, inglesa e norte-americana, para falar das principais.


A autêntica Amazon Beer
Este mimetismo nada original foi rompido, com autenticidade, por uma marca genuinamente brasileira - a Amazon Beer, não por acaso de Belém do Pará. Com certidão de nascimento cravada no ano 2000, a Amazon Beer está instalada na Estação das Docas, complexo de lazer que atrai milhares de turistas. 


Sua peculiaridade está em elaborar cervejas com matérias-primas originais da floresta amazônica. É pura inovação. Sem invencionismos, só utilizando o que está próximo, na terra onde nasceu.


Fiel à produção artesanal, sem usar aditivos químicos, a Amazon Beer possui cinco tipos únicos com sabores e aromas próprios, vindos de ingredientes tipicamente brasileiros. Provei todos os rótulos, menos os dois "normais" (Pilsen e Lager). E fiquei positivamente impressionado com todos eles. 


O Acaí suscitou uma Stout deliciosa, nada enjoativa. A Priprioca, raiz típica da Amazônia, conferiu um toque amadeirado diferenciado para a Red Ale. O Taperebá, também conhecido como cajá, trouxe frescor e leveza para a Witbier. O Cumaru, a baunilha da floresta, deu personalidade para uma incrível Ipa India Pale Ale. E o Bacuri, fruto singular da Amazônia, emprestou um sabor exótico para a Friut Beer.  


Sem seguir a tal Lei de Pureza Alemã - que proíbe este tipo de inovação - a Amazon Beer produz cervejas de alta qualidade com um gosto genuíno de Brasil. Puramente brasileira!



Em tempo: Adaptada à realidade atual, a 
Reinheitsgebot hoje vigora como Lei Provisória da Cerveja Alemã. O conjunto de regras incluiu a levedura aos ingredientes permitidos. O uso do trigo e do açúcar de cana também foram aceitos, na década de 90, assim como foram permitidas as técnicas de envelhecimento em barris de carvalho e dry hopping, que consiste na adição de lúpulo na fase de maturação.

5 comentários:

  1. É gratificante ler um texto escrito de forma lúcida, sem o ranço de ideologias políticas que nada têm a ver com o sabor ou a qualidade da cerveja. Inovar é sempre importante e cervejas inovadoras podem ser melhores (mas não necessariamente) do que aquelas que seguem a velha escola.
    aqui no nordeste e na maior parte do Brasil continuaremos seguindo a linha do copia e cola de cervejeiros estrangeiros, mas isso não significa também que a cerveja será necessariamente pior do que já foi antes ou pior do que poderia ser usando os mesmos ingredientes. Afinal, cerveja produzida em bilhões de litros precisa de ingredientes provenientes da agroindústria, não dá pra pensar em fermentar nossos frutos tropicais, ainda que maravilhosos, porque nenhum deles dá nem um lanchinho pras dornas das grandes cervejarias. A adição de milho ou arroz é uma solução industrial de larga escala e a cerveja que sai não é tão ruim assim, desde que gelada...e não faz a mínima diferença se o grão é transgênico ou não, foda-se este preconceito besta.
    Também provei a Amazon e gostei muito. Quem sabe um dia teremos milhares de pequenas cervejarias espalhadas por aí oferecendo produtos alternativos às grandes? Quem sabe uma cerveja de caju no Nordeste? Mas o preço das garrafinhas da Amazon me deixou decepcionado: nunca será a cerveja do povo brasileiro, só dos que têm grana no bolso. Este é um gargalo que precisa ser resolvido.

    ResponderExcluir
  2. Obrigado pelo comentário e pela oportunidade de debater este assunto em alto nível. Saúde!!!

    ResponderExcluir
  3. Ótimo texto. É importante que todos saibam o que realmente estão bebendo. Divulgar as "cervejas" de milho, é indispensável.

    ResponderExcluir
  4. É no mínimo ignorância dizer que "Os cervejeiros brasileiros - em sua quase totalidade - têm se comportado como macacos." (trecho do seu texto), quando o movimento de cervejas artesanais está mais forte do que nunca, principalmente na região Sul, a qual você deveria ter mais conhecimento por morar aí.

    E embora eu prefira outras escolas em relação à alemã, posso afirmar que mesmo seguindo a lei de pureza é possível fazer cervejas muito diferentes do que existe no mercado ou mesmo na Alemanha, talvez você não conheça o processo e não saiba que as diferenças no processo de produção geram cervejas totalmente diferentes mesmo que se use os ingredientes básicos.

    Com relação à Amazon Beer, infelizmente foi uma das menos saborosas que experimentei se considerar as muitas nacionais que existem, e a IPA deles tem tanto fruto que mata qualquer sabor e aroma de lúpulo existentes.

    Se quiser experimentar brasileiras boas e inovadoras, comece por Way Beer e Bodebrown, ambas do Sul. Se quiser ver a variedade que a lei alemã permite, conheça a Bamberg de Votorantim e veja que seguindo a lei é possível ter personalidade própria.

    As escolas (alemã, inglesa, americana) existem por causa de seu pioneirismo e da tradição destes países com a cerveja, coisa que o Brasil nunca teve, e por mais pioneirismo que possamos ter não há como fugir de ingredientes e processos básicos sem os quais não é possível produzir a cerveja, e os estilos de cerveja (vide BJCP) contemplam a maioria das cervejas que se produz hoje ou que é possível fazer usando determinadas quantidades dos ingredientes básicos, os ingredientes adicionais (frutas, leite, chocolates, raízes) não fazem com que a cerveja seja considerada de outro estilo, a receita base é sempre a mesma.

    O fato de adicionar frutas em estilos de cerveja existentes não difere as cervejas produzidas das "receitas clássicas" que você diz serem tão copiadas, uma IPA é uma IPA seja ela "comum", com maracujá, ou com Cumaru.

    Conheça mais as cervejas nacionais e irá se surpreender com a quantidade de cervejas boas que existem e a inovação que o país já tem.

    Com meu pouco conhecimento em vinhos poderia dizer também que é tudo cópia de receitas, que basta usar as mesmas uvas e quantidades que um francês, por exemplo, e a diferença se dará apenas pelo terroir, e que nesse caso a inovação é zero. Mas não falo isso porque não é minha área.

    Abraço!

    ResponderExcluir
  5. Obrigado pelo seu comentário, Fernando. Gosto é gosto, não se discute. Tu não gostou da Amazon Beer. Eu gostei. Tu não acha eles inovadores. Eu acho. Conheço muito bem as cervejas elaboradas no RS. Entre elas, destaco a Schatz, conhece? A Bodebrow, do Samuel, é um ícone do Paraná e do Brasil. Também conheço a Way, e gosto. Mas prefiro a Maniba, por exemplo, e da Al Capone, entre tantas outras. De novo, obrigado pelo teu comentário e viva as diferenças. Saúde!

    ResponderExcluir