terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Amores roubados, vinhos descobertos

Cauã Reymond e Isis Valverde, o casal que misturou
ficção com realidade em Amores Roubados
Os enochatos torceram o nariz. Eu vibrei! A nova minissérie da Globo, Amores Roubados, que fez sua estreia na última segunda-feira (dia 6) e segue até a próxima sexta (17), colocou o vinho como personagem principal. Mais: o vinho brasileiro, elaborado no Vale do São Francisco, entre os estados da Bahia e Pernambuco. Todas as imagens relacionadas aos vinhedos e à vinícola foram feitas em Petrolina (PE), na Rio Sol, da Vinibrasil, do Grupo Global Wines/Dão Sul. Até a casa da família protagonista da trama, proprietários da fictícia vinícola Vieira Braga, é da Rio Sol. 

As imagens captadas na sala de barricas e os vinhos e espumantes degustados são todos (apesar dos rótulos mascarados) da vinícola brasileira, controlada por um grupo português. “A repercussão é enorme entre os turistas do Brasil e do mundo”, me disse, entusiasmado, o diretor da Vinibrasil, João Santos. “Os atores ficaram três meses aqui na região, vindo quase todos os dias à vinícola”, conta. Segundo João Santos, todos os lançamentos da minissérie no Nordeste e no Rio de Janeiro tiveram a presença dos vinhos e espumantes da Rio Sol. Isso tudo sem a empresa investir um centavo.

Dos cinco capítulos já apresentados, de um total de 10, o vinho contracenou sempre com os consagrados atores e atrizes globais – Cauã Reymond, Dira Paes, Isis Valverde, Murílo Benício, Osmar Prado e Patrícia Pillar. Dá pra imaginar o valor disso para o mercado do vinho no Brasil? É incalculável. É um presente – histórico – da Rede Globo para a vitivinicultura nacional. Abre parêntese. A emissora estava devendo isso desde que o Ibravin (Instituto Brasileiro do Vinho) gastou toda a sua verba de marketing disponível 
– cerca de R$ 1,8 milhão – em pouco mais de 50 comerciais de 30 segundos na Globo. Isso em 2008. Fecha parêntese.

Não vou me deter em pequenos problemas técnicos que só os críticos enxergam e denunciam. Como o fato do sommelier Leandro, interpretado por Cauã Reymond, ter oferecido um espumante “suave” em uma das cenas. Afinal, os bons sommeliers têm de conviver com o consumidor neófito, que costumeiramente faz este tipo de colocação. Este detalhe não tem a menor importância para o contexto da história e é pífio para algo extraordinariamente maior – o fato de o vinho ser o centro da história, no horário nobre, na emissora de maior audiência do país!
Cauã em uma degustação às cegas que deu o que falar

Alguns dirão que estou exagerando. Não estou. É claro que o que chama mais atenção do público é o formato sexy da minissérie, que mistura traição, mistério, paixão e sexo para atrair os telespectadores.

Na pele curtida cor de jambo de um sommelier, o galã Cauã Reymond vive um triângulo amoroso com Celeste (Dira Paes), Isabel (Patrícia Pillar) e Antônia (Isis Valverde), filha de Isabel e do poderoso Jaime (Murilo Benício), genro de Antônio (Germano Hauit), que ergueu a vinícola Vieira Braga, a mais bem-sucedida produtora de vinhos do Sertão. Ou seja, o núcleo central da história é o vinho – e melhor, uma vinícola brasileira!

Depois de expandir e modernizar os negócios da vinícola, Jaime sonha em ver a filha, Antônia (Isis Valverde), como sua sucessora no comando do empreendimento. Antônia acaba de regressar de uma temporada de estudos sobre vinhos na Itália. Como recheio da história, houve até uma degustação às cegas com o maior produtor de frutas da região, Roberto Cavalcanti (Osmar Prado), que terminou na adega, com uma cena de amor entre o sommelier e a mulher do empresário, Celeste (Dira Paes). Alguém sugeriu que o personagem principal fosse um enólogo e não um sommelier! Ora, quanto preciosismo.

Desculpem meus amigos enólogos, mas um sommelier sofisticado vindo de São Paulo à beira do rio São Francisco harmoniza muito mais com a personificação de um “Casanova do Sertão”, bonito, inteligente e com uma lábia irresistível. Cauã Reymond enfrentou um curso expresso de 17 horas na Associação Brasileira de Sommeliers (ABS). A meu ver, se comportou com notável desenvoltura no papel. É claro que sua postura não é 100% técnica, como apontam alguns especialistas do setor. Mas será que isso caberia em uma minissérie global?

Casanova do Sertão: Cauã Reymond
O mais importante, repito, é o protagonismo do vinho nesta estória incrível de desejo, ciúmes e vingança, inspirada no romance A Emparedada da Rua Nova, do pernambucano Carneiro Vilela, publicado originalmente há mais 100 anos, entre 1909 e 1912, no Jornal Pequeno, do Recife.

Também cabe ressaltar o fato de o Nordeste ser retratado de um novo jeito pela Globo. Habitualmente, a região é mostrada como espelho da pobreza. Agora, o foco se altera e o Nordeste – via produção de vinhos (e frutas, em menor destaque) – como uma região promissora, com forte potencial econômico e inabalável beleza. Mesmo na parte agreste da trama, filmada em Paulo Afonso (BA), a pesada história é pintada com os efeitos de cenário dos filmes hollywoodianos, transformando os prazeres e os desejos humanos em algo belo, apesar de perigoso e triste, por vezes. “C'est la vie”, diriam os franceses.

Permitam-me uma digressão. 

A Emparedada da Rua Nova, o romance que serve de base para a minissérie, é até hoje alvo de mistério. Ninguém sabe ao certo se o seu autor, Carneiro Vilela, fundador da Academia Pernambucana de Letras, realmente retratou um crime verdadeiro, trágico e hediondo, onde uma moça foi emparedada viva pelo próprio pai, ou se tudo não passa de ficção.

O fato é que os seus autores atuais – George Moura, Sérgio Goldenberg, Flávio Araújo e Teresa Frota, com supervisão de texto de Maria Adelaide Amaral, direção geral de José Luiz Villamarim e núcleo de Ricardo Waddington – escolheram o vinho como moldura da trama. No livro-mãe, a estória se passa no velho Recife (e não no interior), nos idos de 1861, onde circulava-se à cavalo ou em carroças – e não em caminhonetes.

As personagens envolvidas têm origem na aristocracia pernambucana, ligada aos negócios do açúcar ou com o comércio. O teatro Santa Isabel – e não uma vinícola – foi o palco da aproximação entre Leandro e Celeste. Aliás, Leandro não era um sommelier e sim um falso estudante de Medicina. A única semelhança com a personagem atual é a sua capacidade de conquistar as mulheres, à la Don Juan. Até os nomes das personagens principais do drama foram alterados. Isabel era Josefina na obra original; e Antônia era Clotilde.

> A bela Isis Valverde em meio aos vinhedos da Rio Sol em Petrolina (PE)
Faço esta comparação entre a obra original e a adaptação em “Amores Roubados” para deixar claro que a escolha da Globo em ambientar a estória no mundo do vinho é um regalo ao setor. Quem possui um consumo de vinho per capita ao redor de 2 litros, como o Brasil, só pode comemorar o fato de o vinho ser assunto na maior rede de tevê aberta do país.

Não tenho dúvida que a cultura do vinho – de um jeito simples, direto e, por que não dizer?, apaixonante – alcançará pessoas que o marketing jamais sonhou chegar. É isso que importa. E não o fato de a maioria das cenas em vinhedos terem sido gravadas em parreiras de uvas de mesa para exportação. Até porque, se eu fosse o diretor faria as mesmas escolhas cenográficas, visto que as vinhas em latada formam um corredor atraente para captação de belas imagens.


> Patrícia Pillar e Isis Valverde nos tanques da Rio Sol
Debaixo de um sol escaldante, em um lugar ermo, a escolha natural seria colocar copos de cerveja ou de cachaça nas mãos dos protagonistas. Mas a paixão da estória contada não poderia combinar melhor do que com vinho. O sommelier Leandro, vivido pelo astro Cauã Reymond, degusta vinhos e seduz mulheres da alta sociedade em um lugar paradisíaco para o povão ver. De graça. No conforto do sofá.

Quem sabe, agora, o brasileiro descubra, também, a paixão pelos vinhos. Se  sentir-se inspirado a ao menos provar um taça, já será um grande sucesso.

SAIBA MAIS

Globo lança "Dicas de Sommelier"
No embalo da minissérie , a Rede Globo lançou o aplicativo Amores Roubados - Dicas do Sommelier. A introdução é provocativa: “O belo Cauã Reymond vive Leandro, um sommelier apaixonado pela sedução e pelo prazer do risco. Se você, assim como ele, também quer viver uma experiência única com as sensações oferecidas por vinhos dos mais diferentes aromas, texturas e sabores, vai adorar esta interatividade”.

A propaganda da Globo segue: “Nosso sommelier virtual dá dicas de hamonização de vinhos com os mais variados pratos, além de ensinar como degustá-los, qual a temperatura adequada para cada tipo e as maneiras de dencantá-los. Ele também oferece um manual que ensina a usar os diferentes formatos de taças. E você pode acessar de qualquer tipo de smartphone ou tablet.”

Ficou curioso? Siga o link http://redeglobo.globo.com/series/vem-ai/amores-roubados/noticia/2013/12/amores-roubados-descubra-qual-vinho-combina-com-sua-refeicao.html

Conheça a Rota das Águas aos Vinhos
Para quem quer conhecer o cenário de Amores Roubados, a dica é fazer o passeio pela Rota das Águas aos Vinhos. A saída é de Petrolina pela estrada, passando pelo projeto irrigado Nilo Coelho, seguindo para Lagoa Grande, vinícola Rio Sol, onde é visto o parreiral, com mais de 16 variedades de uvas Vitis vinífera. Depois da visita à vinícola para ver o processo de produção e engarrafamento, um catamarã leva para o rio São Francisco, com direito à parada para um delicioso banho. O retorno à fazenda da Rio Sol termina na casa sede da minissérie para um almoço com vinhos e espumantes.

Reservas pela Opção Turismo (87 3862.1616  ou 87 8854.1097). 

4 comentários:

  1. Confesso que no começo fiquei um pouco cético com a maneira com a qual a profissão fora retratada na mini série. Depois, encafifei um pouco com o por que de não se ambientar a série em um local conhecidamente com maior vocação para o vinho do que no Rio Grande do Sul. Por fim, perdi o preconceito e entendi que mais do que tudo isso e muito mais do que vem sendo dito por ai, colocar o vinho como protagonista e na boca das pessoas (seja ao menos para comentar) já é uma melhor forma de propaganda do que grande parte do que já fora feito por aqui em relação ao mercado de vinhos. Vamos ver o que acontece daqui pra frente.

    Abraços.

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    1. Que bom, Victor Beltrami. Obrigado pelo comentários e pela contribuição ao debate com suas ideias! Abraços, OAJ

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  2. Gostei muito! Da série, estou gostando. Do seu texto, adorei. Que importam os detalhes da produção quando há um mundo maior a ser explorado no entorno? Aliás...essa região é uma das mais ricas e desconhecidas do país!!! Beijos!!!

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  3. Que legal, Viviane. Obrigado pelo teu comentário. Beijão, querida. OAJ

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