segunda-feira, 22 de julho de 2013

Inauguração da Vinícola Guatambu é um marco para a região da Campanha Gaúcha

> Estilo espanhol: nova vinícola Guatambu, na entrada de Dom Pedrito
A vinícola Guatambu Estância do Vinho instalada na entrada de Dom Pedrito é a primeira da Campanha Gaúcha planejada para o enoturismo. A inauguração consumada no último dia 6 de junho dá impulso à nova vocação da região para a produção de uvas e derivados – chamada de a “Califórnia Brasileira” – que já conta com 16 empreendimentos vitivinícolas. A região da Campanha já é responsável por 15% da produção de vinhos finos brasileiros. A revolução no Pampa Gaúcho está só começando. Mas antes de tratar do futuro, é preciso visitar o passado.
Em 2003, recém formada em Agronomia em Porto Alegre, Gabriela Hermann Pötter, hoje com 33 anos, tanto insistiu que ganhou uma área equivalente a meio campo de futebol do pai, o médico veterinário Valter José Pötter, para plantar uvas Cabernet Sauvignon. A ideia era testar uma nova atividade para diversificar os negócios da Estância Guatambu. Na teoria, as condições climáticas se mostravam favoráveis ao plantio de uvas, como os verões secos, alta insolação e boa amplitude térmica.
A pequena área (apenas meio hectare) cedida por Valter José Pötter – dono de mais de 4.000 hectares onde planta arroz, milho, soja, cria gado e cordeiro – demonstra a aposta modesta na nova atividade iniciada há uma década. Mas rapidamente o sonho de Gabriela contagiou a família toda. Já no segundo ano o plantio passou para três hectares, com a introdução de mudas da rainha das uvas, a Chardonnay.
> A sonhadora Gabriela Pötter
Em 2007, veio a primeira vinificação experimental na Embrapa Uva e Vinho, em Bento Gonçalves. Um ano depois, em 2008, nasceu o rótulo inaugural – Rastros do Pampa Cabernet Sauvignon. Foi nesta época que Valter Pötter, já embriagado com o mundo do vinho, andava pelo Parque de Exposições Assis Brasil, durante a Expointer, com uma garrafa de seu vinho tinto embaixo do braço. O caudilho que discorria sempre sobre gado, arroz, entre outros temas do agronegócio, estava monotemático – só falava sobre vinho!
[Na época eu era chefe da Assessoria de Imprensa da Secretaria Estadual da Agricultura do Rio Grande do Sul e coordenava a comunicação da Expointer. Fiquei espantado com a devoção e a entrega da família Pötter ao vinho. Tive a sorte de acompanhar a trajetória ao longo desses anos e vejo que a história de sucesso está no seu limiar.]
Hoje já são 22 hectares na Estância Guatambu, que abrigam as uvas Cabernet Sauvignon, Tannat, Tempranillo, Merlot, Pinot Noir, Chardonnay, Sauvignon Blanc e Gewürztraminer. Os vinhedos estão situados na latitude 31 sul – a mesma de países como Argentina, Chile, África do Sul e Austrália, referências na produção de bons vinhos.

Do desejo de Gabriela é que agora emerge na imensidão do Pampa Gaúcho a Vinícola Guatambu, um prédio com 3.000 m², distribuídos em dois níveis, ao estilo espanhol. O investimento total chega a R$ 10 milhões. Com foco na sustentabilidade, a vinícola foi projetada para funcionar 100% com energia solar e conta com reservatórios que captam a água da chuva, reaproveitando-a no próprio local. 
Outro destaque é o jardim nativo formado com mais de 25 plantas oriundas do Pampa Gaúcho.
Além da visita para conhecer todo o processo de elaboração de vinhos, é possível fazer cavalgada nos vinhedos e apreciar a criação de ovinos e bovinos da Estância Guatambu, uma propriedade rural com 56 anos de existência. A degustação dos vinhos e espumantes da Guatambu é harmonizada com tábua de frios ou parrilla de carne Hereford e cordeiro produzidos na própria estância. A vinícola também possui uma loja para venda da linha de vinhos, produtos típicos da região e cosméticos a base de uva.
> Imagem típica: na Campanha Gaúcha é comum
encontrar ovelhas pastando em meio ao vinhedo
Investimento alto,
retorno idem
A aposta de Valter Pötter é conseguir o retorno do seu investimento em uma década. Quem o conhece sabe que ele não desperdiça dinheiro e tampouco entra em algo para perder. Segundo ele, 1 hectare de vinhedo corresponde a um retorno equivalente a 300 hectares com agricultura e a 1.000 hectares com pecuária. Por dois motivos: aproveitamento máximo da área com produção e margens de lucro mais atraentes do que o agronegócio. Outra comparação realizada por Pötter é que os R$ 10 milhões aplicados na vinícola seriam suficientes para comprar 500 hectares na região, que gerariam cerca de R$ 700 mil em 12 meses. “As videiras podem render até sete vezes mais”, confessa, estimando um lucro líquido de R$ 1 milhão ao ano.
É assim que os vinhos passarão de 10% do faturamento dos negócios da família Pötter para 50% até 2015. Para tanto, é indispensável melhorar a infraestrutura da região, como a construção de um aeroporto (o lugar ideal seria o Trevo da Faxina, a 60 quilômetros de Dom Pedrito rumo aos municípios de Livramento e Rosário), asfaltamento entre Dom Pedrito e São Gabriel, que diminuiria de 440 Km para 380 Km a distância até a capital Porto Alegre. Ademais, Pötter estuda abrir uma loja exclusiva em São Paulo ou no Rio de Janeiro. Parceria com agências de turismo, com hotéis da região e sobretudo a união de seus vinhos com os leilões de animais realizados pela Estância Guatambu durante o ano complementam as ações de Pötter para alcançar o resultado almejado.
A casa das cinco mulheres: Raquel, Isadora, Valter, Nara, Gabriela e Mariana 
O alicerce dos negócios está feito. A base é sólida e bela – uma das vinícolas mais atraentes do Brasil. Agora, o desafio é melhorar os vinhos, que ainda carecem de destaque maior, até porque suas vinhas são jovens. Mas o futuro se mostra promissor, visto que a degustação vertical do Rastros do Pampa Cabernet Sauvignon (da safra 2007, que não chegou a ser comercializada, passando pela 2008, 2009, 2010 e, as últimas ainda inéditas, 2011 e 2012) indicou a todos os críticos e jornalistas presentes, no dia 6 de junho, uma notória evolução (cada safra provada se mostrou melhor do que a anterior), percebida por quase a totalidade dos degustadores.

No almoço, na fazenda Guatambu, o espinhaço de ovelha harmonizou muito bem com o Rastros do Pampa Tannat 2012 – pra mim a surpresa da viagem, com boa fruta e elegante no paladar. O Guatambu Rosé Brut, lançado na noite da festa de inauguração da vinícola, é o primeiro espumante brasileiro elaborado com as uvas Pinot Noir e Gewurztraminer. É fresco, frutado, tem uma cor linda, mas peca pelo preço de R$ 40 (alto, a meu ver).

> Evento teve presença vip
do ator Thiago Lacerda
O que as vinícolas da Campanha Gaúcha precisam ainda aprender é trabalhar com marketing. A Guatambu mostrou um caminho possível - convidando quase 30 jornalistas e blogueiros de todo o Brasil e tendo como atração vip o ator Thiago Lacerda. Garantiu assim uma boa mídia espontânea com baixo investimento. 

Isso é mais do que necessário, é obrigatório. Afinal, a imagem de um vinho é que faz toda a diferença na hora do consumidor escolher um rótulo em meio a uma infinidade de opções. O mesmo erro da maioria das empresas da Serra Gaúcha ainda é cometido por empresas de outras regiões. Qual seja: todo o investimento é destinado para equipamentos, vinhedos, etc, e quase nada para marketing, construção de marca e publicidade. Isso é um pecado, a curto, médio e longo prazo. Menos mal que ainda está em tempo de corrigir. E aí, mais uma vez, a Guatambu deu um bom exemplo. 

Serviço
Para agendamentos de visitas ou aluguel do salão Rastros do Pampa, os interessados devem entrar em contato através do e-mail visita@guatambuvinhos.com.br.

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