domingo, 14 de abril de 2013

Brunello Di Montalcino: o primeiro vinho musical do mundo não desafina

> Safra 2002 se mostrou exuberante na taça.
Mas está no ápice, com uma leve cor atijolada
denunciando a sua evolução
O rótulo do vinho Brunello Di Montalcino da Vinícola Il Paradiso di Frassina chama a atenção na prateleira. É um cacho de uva em dourado sobre linhas que sugerem notas musicais. Mais do que beleza, o rótulo deste vinho traduz uma prática inusitada do produtor italiano Giancarlo Cignozzi, dono da vinícola totalmente orgânica situada a cerca de 5 quilômetros da cidade de Montalcino. Seus vinhedos embrenhados nas mágicas colinas da Toscana, na Itália, descansam e produzem uvas ao som de música clássica (piano e cordas), especialmente do compositor Mozart. É o primeiro cultivo de uvas musical do planeta.

Milanês formado em Direito, Giancarlo Cignozzi foi responsável por um dos brunellos mais famosos da região, o Tenuta Caparzo. Ele comprou a então abandonada vinícola Il Paradiso di Frassina em 1999. A recuperação do projeto foi baseada em uma novidade insólita – a instalação de 12 alto-falantes no vinhedo para reprodução de música clássica. A inspiração veio do Brasil. “Quando estive na Amazônia, um pajé disse que a minha vida seria feita de vinho e música”.

A intuição é baseada na filosofia oriental, segundo plantas e animais são diretamente influenciados pelos sons no seu entorno. A escolha pela música clássica é porque acalma e revigora. Em uma entrevista para a rede de tevê CNN, o produtor explica que samba e rock não são músicas adequadas ao seu cultivo musical de uvas porque deixam as pessoas – e, portanto, as plantas – agitadas.

> 80 auto-falantes tocam música clássica 24 horas/dia
Os efeitos nas uvas Sangiovese são impressionantes. Conforme Giancarlo Cignozzi, as uvas que “ouvem” música clássica amadurecem mais rápido, mais fortes e mais sadias do que as que estão afastadas dos alto-falantes. Ele ainda garante que a música afungenta pequenos predadores, como os insetos. O professor Stefano Mancuso, engenheiro agrônomo e pesquisador da inteligência das plantas, afirmou para a Rede Globo que a vibração da música estimula a produção de polifenóis nas uvas, melhorando o potencial saudável do vinho, já que estas substâncias são eficientes antioxidantes.

Os efeitos dos 80 alto-falantes doados pela empresa Bose ainda estão sendo estudados por pesquisadores das universidades de Florença e Pisa, mas depois de tomar uma garrafa deste vinho da safra 2002, a minha sentença é clara e objetiva: é um vinhaço, seja ou não por influência de Mozart. Independentemente do seu poder sobre as uvas que geraram este vinho esplêndido – um típico brunello de alto quilate – é certo que a música clássica não atrapalhou em nada. Também é certo que ajudou na criação do bonito rótulo e para esta curiosa estória, tão importante para harmonizar qualquer conversa em torno de um vinho, tanto quanto uma boa comida. Este Brunello Di Montalcino é pura música para meu paladar. E não desafina.

> Giancarlo Cignozzi diz que inspiração veio de uma viagem à Amazônia:
"um pajé disse que a minha vida seria feita de vinho e música"

Em tempo: comprei este vinho em uma loja instalada atrás do Shopping Atlântico em Balneário Camboriú (SC). A garrafa estava esquecida no fundo da prateleira dos vinhos italianos, sem preço. Reconheci o rótulo e perguntei quanto custava. O atendente procurou o preço e não achou. Perguntou quanto eu pagaria – eu disse R$ 89. Não sei exatamente por que citei este valor. Ele topou, desde que eu levasse os outros cinco vinhos que havia escolhido. E eu praticamente ganhei um vinho que costuma custar de R$ 290 até R$ 600 no Brasil, dependendo da safra.  A 2003 é mais barata; a 2002 é mais cara e a de 2004 acho que nem chegou ao Brasil. Foi excelente!

4 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Olá Orestes,

    parabéns pela postagem.

    Há também uma vinícola da África do Sul que utiliza esta técnica inusitada de por música clássica para as videiras "ouvirem"... seus vinhos são vendidos por cerca de 15 dólares nos EUA.

    Lá também não há estudos científicos sobre o assunto, mas uma pesquisadora de Pretória está estudando se há alguma influencia e acha que as notas musicais fortalecem o crescimento das plantas...

    O dono jura que as safras duraram por mais tempo nos anos em que tem praticado a técnica...

    Eu não sei, como Eng, Agrônomo prefiro não opinar antes de ter algum estudo...

    abraço Orestes e parabéns pelo blog por sua manutenção agora que não trabalhas mais diretamente com os vinhos!

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  3. Obrigado pelas informações, Leandro. Não sabia disso. Vou procurar os vinhos pra degustar. Abração!

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  4. De nada Orestes,

    escrevi no meu site um texto incluindo estas informações, um vídeo com uma reportagem sobre esta vinícola da áfrica do sul e uma análise minha sobre o assunto (hehe), mas não fui tão ousado quanto poderia ser... se quiser conferir está no link:

    http://portalvitivinicultura.webs.com/apps/blog/show/25696624

    abraço!

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