terça-feira, 23 de outubro de 2012

Vale dos Vinhedos entra para a 1ª divisão do mundo do vinho

Os vinhos e espumantes brasileiros acabam de entrar na primeira divisão do mundo de Baco. Isso porque, após dois anos de análise, o Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) aprovou o pedido de registro de Denominação de Origem (DO) para o Vale dos Vinhedos, uma região de 81 mil quilômetros quadrados de área situada em três municípios – Bento Gonçalves (60% do total), Garibaldi (33%) e Monte Belo do Sul (7%) – na serra do nordeste do Rio Grande do Sul.

>Propriedades de 2,5 hectares em média do Vale dos Vinhedos elaboram entre 12 e 14 milhões de garrafas de vinhos finos por ano

Agora, o Brasil possui sua primeira DO de vinhos e espumantes, categoria mais complexa e valiosa de uma Indicação Geográfica (IG). A luta por esta conquista foi liderada pela Associação dos Produtores de Vinhos Finos do Vale dos Vinhedos (Aprovale), criada em 1996. O pedido de DO foi oficializado em 2010. O reconhecimento do INPI foi dado no último dia 11 de setembro, dez anos depois de a região ter se tornado a primeira no Brasil com IG na modalidade Indicação de Procedência (IP). Com a concessão do primeiro registro de IG, em 2002, a produção da região aumentou cerca de 30%. Com a DO, a expectativa é crescer mais 10%.

>Emilio Kunz Neto: "A DO eleva os vinhos
brasileiros ao nível dos melhores do mundo"
“A DO eleva os vinhos brasileiros ao nível dos melhores do mundo. É um clube com poucos sócios, assim como no futebol, onde a primeira divisão tem um número limitado de times”, afirma o consultor Emílio Kunz Neto, engenheiro químico por formação, enólogo e especialista em vitivinicultura, ciência e tecnologia dos alimentos. “Em termos evolutivos, a DO representa o debut para os vinhos brasileiros, uma transição entre a infância e a vida adulta. A partir de agora, vamos caminhar para a maturidade”, avalia.

Mas o que significa ter uma DO? “Ao escolher um vinho com DO Vale dos Vinhedos no rótulo, o consumidor terá a garantia de encontrar vinhos com procedência e qualidade garantidas”, responde o presidente da Aprovale, Rogério Carlos Valduga. No mundo de Baco, dá pra ir além e falar em tipicidade, que nada mais é do que a personalidade genuína de um vinho. Exibir nos rótulos o selo “DO – Denominação de Origem Vale dos Vinhedos” significa que os produtos são elaborados respeitando os mais altos graus de exigência e controle, mas, sobretudo, que possuem identidade própria.

Kunz cita o setor do café para exemplificar a importância da Denominação de Origem. “O mais importante é que a busca de regulamentação, que em síntese é a procura por mais qualidade, partiu dos próprios produtores, assim como no café brasileiro, hoje reconhecimento mundialmente. É isso que traz confiabilidade ao consumidor”, observa. “A DO ainda é um atestado de que a região tem características singulares reconhecidas, simplificando, um sabor único”, acrescenta.

Exigências
Para ter o selo de DO, o produto passa por um extenso caminho de controle de qualidade da produção, desde o plantio das uvas, passando pelo processo de elaboração, até a comercialização dos vinhos. A produção, por exemplo, deve ser exclusivamente de uvas viníferas cultivadas em espaldeira e colhidas manualmente no Vale dos Vinhedos. Há limites de produtividade para cada tipo de uva: dez toneladas por hectare para vinhos e 12 toneladas por hectare para espumantes. Os vinhos varietais da região são merlot (tinto) e chardonnay (branco), que devem conter no mínimo 85% dos produtos. Como variedades complementares, são admitidas as uvas cabernet sauvignon, cabernet franc, tannat e riesling itálico. Nos cortes (assemblage), deve haver no mínimo de 60% de merlot (tintos) e chardonnay (brancos). A comercialização pode ser realizada somente após um período de seis meses de envelhecimento.

Tudo isso garante um padrão mínimo de qualidade que traz segurança aos mais exigentes consumidores. Antes de receber o selo de DO, os produtos são degustados por uma comissão de especialistas, o Conselho Regulador da Aprovale, que atesta na taça o respeito às regras e a tipicidade dos rótulos elaborados. Esta análise prática é feita desde a safra de 2009, quando as vinícolas do Vale dos Vinhedos já viviam a expectativa de ter a DO sacramentada.
>Vinho Chardonnay
da Don Laurindo com
selo da DOVV

De 2009 até 2011, 26 produtos foram aprovados e garantiram o selo da DO. O domínio é dos vinhos chardonnay, com 10 rótulos ratificados, e merlot, com 9. Os espumantes têm cinco rótulos com DO e há dois vinhos tintos assemblage. A melhor safra entre as três foi a de 2009, que teve 12 rótulos confirmados. A safra 2010 teve sete produtos admitidos e a de 2011, seis. Preliminarmente, a safra de 2012 só tem um vinho branco aprovado, mas há outras 22 amostras em fase final de certificação. Se aprovadas, o Vale dos Vinhedos terá 48 rótulos com a distinção.

Entre as vinícolas, a Miolo lidera com nove produtos aprovados. Em seguida, aparece a Pizzato, com sete. Quatro empresas têm dois vinhos com a DO Vale dos Vinhedos: Casa Valduga, Don Laurindo, Peculiare e Terragnolo. Com um rótulo estão Almaúnica e Dom Cândido. Rogério Valduga informa que a produção do Vale dos Vinhedos varia entre 12 e 14 milhões de garrafas de vinhos finos por ano. Cada propriedade tem, em média, 2,5 hectares cultivados por videiras. “As vinícolas de pequeno porte são mantidas por famílias que cultivam vinhedos próprios e elaboram seus vinhos”, explica.

Futuro
O sucesso comercial da DO, contudo, só virá com o tempo. “O selo precisa virar marca e isso só acontecerá se o consumidor realmente reconhecer o diferencial de qualidade. O caminho é divulgar a existência da DO Vale dos Vinhedos e o que ela significa”, argumenta Kunz. Um dos grandes obstáculos pela frente é o costume do consumidor de escolher vinhos pela uva e não pela região ou país. “Isso é um problema que precisa ser enfrentado com criatividade e educação do consumidor”, opina o consultor.

Confira todas as regras da DO no site www.valedosvinhedos.com.br.

Vinhos e espumantes com a DO Vale dos Vinhedos

Charnonnay
- Miolo Cuvée Giuseppe Chardonnay (safras 2009, 2010, 2011 e 2012)
- Pizzato Chardonnay (safras 2009, 2010, 2011)
- Casa Valduga Chardonnay Gran Reserva (safras 2010 e 2011)
- Don Laurindo Chardonnay (safra 2011)

>Vinho Melort
Terroir da Miolo
com o 
selo da DO

Merlot
- Almaúnica Reserva Merlot (safra 2009)
- Dom Cândido Documento Merlot (safra 2009)
- Don Laurindo Merlot (safra 2009)
- Miolo Merlot Terroir (safras 2009 e 2011)
- Pizzato Merlot (safra 2009)
- Peculiare Merlot (safra 2009)
- Terragnolo Merlot (safras 2009 e 2010)
Assemblage
- Miolo Cuvée Giuseppe Merlot/Cabernet Sauvigon (safras 2009 e 2010)
      
Espumante Brut
- Espumante Brut Miolo Millésime (safra 2009)
- Espumante Pizzato Brut (safras 2009, 2010 e 2011)
- Espumante Peculiare Brut (safra 2010)

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