quarta-feira, 3 de outubro de 2012

O projeto (quase) secreto do enólogo do ano

>Daniel Dalla Valle é o mais jovem enólogo do ano escolhido pela ABE
Aos 36 anos, Daniel Dalla Valle é o mais jovem enólogo do ano escolhido pela Associação Brasileira de Enologia (ABE), que já consagrou oito profissionais com a distinção. O reconhecimento dado em 28 de outubro de 2011 veio por seu trabalho à frente das empresas da Famiglia Valduga (Casa Valduga, Domno do Brasil, Cave de Pedra e os destilados da Casa de Madeira). Mas o que poucos sabem é que Dalla Valle tem um projeto próprio de elaboração de vinhos – na praticamente desconhecida vinícola Maximo Boschi.
Filho de viticultores, nascido no interior de Bento Gonçalves, berço do vinho no Brasil, Dalla Valle começou sua carreira de enólogo, como estagiário, em 1994, na Casa Valduga. E está lá até hoje, há 18 anos. Todavia, Dalla Valle mantém um projeto inovador de elaboração de vinhos de guarda iniciado, há 12 anos, com seu ex-colega de Casa Valduga, Renato Antônio Savaris. O nome da vinícola, aliás, foi inspirado no nome do avô e do tataravô de Renato. “Até tentamos colocar Vinícola Dalla Valle, mas já havia registro para vinhos com este nome”, recorda o sócio do enólogo do ano 2011.
>Renato Savaris é sócio de Dalla Valle
e quem toca a vinícola
É na Maximo Boschi que Dalla Valle faz alguns testes que acabam por aprimorar sua técnica de enólogo. “É o sonho do Renato e o meu campo de provas”, declara. Segundo ele, no Brasil, os enólogos só trabalham nas vinícolas onde são contratados. Na Europa e no Chile, por exemplo, é comum os enólogos elaborarem vinhos de autor. “Isso traz novas experiências, é possível testar novas possibilidades. Vinho não é receita de bolo. A experiência é que melhora o enólogo. O desafio é replicar as experiências feitas em pequenas proporções de vinhos em grandes volumes”. A saber: a Famiglia Valduga processou mais de 4 milhões de quilos na safra 2011. A Maximo Boschi recebe no máximo 20 mil quilos por safra, quando tudo vai bem.
As primeiras experiências – de elaboração de vinhos mais encorpados e estruturados – acabaram resultando no posicionamento raro da Maximo Boschi, que nasceu para oferecer vinhos de guarda ao mercado. “Só conseguimos sobreviver pela proposta diferente. Temos que oferecer produtos que não existem no mercado”, diz o enólogo.
Os primeiros rótulos tintos, com as uvas Merlot e Cabernet Sauvignon – foram elaborados na safra do ano 2000. A venda, contudo, só iniciou em 2005. “E o vinho ainda estava duro, com taninos agressivos. Demorou pelo menos dois anos para os taninos serem domados. Agora, com 12 anos!, o vinho está no seu ápice e com alguns anos pela frente”, opina o enólogo. A próxima safra deste vinho, de 2004, acaba de ser lançada. É sempre assim na Maximo Boschi, cujos rótulos são 100% varietais e safrados. Os vinhos são guardados para evoluir lentamente, sem a pressa comercial do mercado atual.

O Maximo Boschi Merlot que está sendo comercializado é das safras 2000 e 2004. O de 2005, a melhor safra dos últimos 20 anos no Brasil, só será lançado em 2013. O vinho branco Maximo Boschi Chardonnay que está à disposição é da safra 2007. As últimas garrafas da safra 2004 esgotaram no final do ano passado. Até os espumantes demoram a serem lançados. O Maximo Boschi Speciale Brut e Extra Brut são da safra 2007. O mais jovem, Brut Tradizionale, é de 2009. O diferencial dos espumantes elaborados pelo método tradicional na Maximo Boschi, com as uvas Chardonnay e Pinot Noir, esta última com percentual mínimo de 40%, é que eles têm sempre passagem por barrica.  

Apesar do alto custo, visto que os vinhos são guardados vários anos antes do lançamento, os preços alcançam no máximo R$ 65. “É barato para esta proposta de vinho. Só conseguimos sobreviver pela proposta diferente. Temos de oferecer produtos que não existem no mercado a preços justos”, diz Savaris.

>Mix: os vinhos, espumantes e suco de uva da Maximo Boschi
Sucesso longe de casa
A ideia de lançar vinhos longevos não nasceu ao acaso. Foi uma tentativa de se diferenciar num mercado de vinho muito disputado. “Pensamos que poderia ser uma curiosidade, algo exótico para o consumidor”, lembra o enólogo. Mas só a prática convenceu Dalla Vale e seu sócio a seguirem este caminho. Em 2005, quando começou a venda dos vinhos, veio a descoberta da dura realidade do negócio, sobretudo quanto à dificuldade para introduzir marcas novas no mercado. “Tivemos certeza de que, para conquistar um pequeno espaço nas taças dos consumidores, teríamos de ser totalmente diferentes de tudo que havia”.

A filosofia da Maximo Boschi surgiu assim. As primeiras 11 mil garrafas elaboradas de Merlot e Cabernet Sauvignon começaram a receber um lento reconhecimento de especialistas e dos consumidores. “No primeiro contato com nossa proposta e com nossos vinhos, todos manifestam desconfiança. Sempre perguntam: vinhos brasileiros de guarda, isso existe?” O enólogo do ano 2011 está provando que, sim, é possível fazer bons vinhos brasileiros evoluídos. “No Brasil há nichos de mercados para muitos tipos de vinhos”.

Depois de descartar as safras 2001, 2002 e 2003, Dalla Valle seguiu a produção de vinhos tintos da Maximo Boschi em 2004 ainda com as uvas tintas Merlot e Cabernet Sauvignon, mas a produção caiu para cerca de 2 mil garrafas de cada rótulo. “Com esta proposta, só é possível fazer vinhos em pequena quantidade”, ensina. Uma novidade também surgiu em 2004 – pouco mais de mil garrafas de um vinho branco varietal Chardonnay, que foi lançado em 2007. “Na época foi considerada uma loucura lançar um vinho branco após três anos, com passagem de seis meses por barricas e dois anos e meio de garrafa”, comenta o enólogo.

O devaneio ganhou adeptos, especialmente no Rio de Janeiro, que responde por metade das vendas da Maximo Boschi. Por meio da Confraria Carioca, os vinhos de guarda da Maximo Boschi conquistaram o famoso Restaurante Fasano e também o chef francês Claude Troisgro, que colocou os rótulos em seus três restaurantes da Cidade Maravilhosa. Além do Rio de Janeiro, a Maximo Boschi tem tido sucesso em Brasília e São Paulo. Apenas 5% dos seus vinhos são comercializados na sua casa, o Rio Grande do Sul. 
>Vinhedos da família Terragnolo, no Vale dos Vinhedos, fornecedora
de uvas para a elaboração dos rótulos longevos da Maximo Boschi
Ainda sem varejo, a Maximo Boschi aproveita a estrutura de vinificação e de armazenamento da Cave de Pedra, situada logo depois do Spa do Vinho. Projetada para ser uma vinícola butique, na safra 2011 foram elaboradas 12 mil garrafas. Este ano o volume cresceu para 20 mil garrafas. Para 2015, a meta é erguer uma vinícola no Vale dos Vinhedos e aumentar a área própria de cultivo, hoje em três hectares da família de Dalla Valle. Antes da Maximo Boschi, as uvas da família Dalla Valle eram vendidas para várias vinícolas, especialmente para a Salton. A Maximo Boschi ainda conta com cerca de 10 fornecedores de uvas habituais. Mas acabam comprando geralmente de três ou quatro produtores a cada safra. Os próprios produtores já sabem quando a uva está boa e pode ser vendida para a Maximo Boschi. A exigência é uvas completamente maduras e sadias.

A Maximo Boschi até lançou, em 2011, dois produtos jovens: o espumante Moscatel Boschi e o Brut Charmat. Eles são exceção à regra. Como os vinhos de guarda são para as vinícolas tradicionais. “O Moscatel teve pouca saída. Tanto que não devemos fazer mais. Nossos clientes esperam de nós vinhos de guarda”, revela Savaris.

Inovação
O campo de provas de Dalla Valle prepara mais inovações. Uma barrica abriga um vinho Merlot, da safra 2008, de um vinhedo todo coberto. Serão cerca de 300 garrafas, com passagem de 18 meses por madeira e no mínimo dois anos de garrafa. “Ainda não decidimos quando vamos lançar”, comenta.

Outra novidade é a elaboração de vinhos Merlot de cada terroir do Rio Grande do Sul (Serra Gaúcha, Serra do Sudeste, Campanha Gaúcha e Campos de Cima da Serra). Uma barrica de cada vinho já descansa na cave. Os rótulos serão lançados em 2014. “Queremos oferecer ao consumidor a possibilidade de comparar as diferenças entre as principais regiões vitivinícolas do Rio Grande do Sul”, diz Dalla Valle, acrescentando que, como enólogo, é importante acompanhar a evolução de cada Merlot vindo de um terroir diferente.

“O enólogo passa a olhar as uvas de um outro jeito quando recebe a sua própria matéria-prima. Acaba tendo mais cuidado com a uva”, admite Dalla Valle. “Qualquer um pode elaborar um grande vinho uma vez na vida. Mas elaborar produtos de qualidade com regularidade é o que faz a diferença para um enólogo”, sentencia. A consagração é criar obras – no caso, vinhos – que desafiam o tempo. Isso é Maximo Boschi.

Retrospectiva do Enólogo do Ano

2004 – Antônio Czarnobay
2005 – Gilberto Pedrucci
2006 – Firmino Splendor
2007 – Adriano Miolo
2008 – Ismar Pasini
2009 - Nauro José Morbini
2010 – Lucindo Copat
2011 – Daniel Dalla Valle

Rótulos da Maximo Boschi

A linha de produtos da Maximo Boschi é composta por nove itens – dois vinhos tintos (Cabernet Sauvignon e Merlot), um branco (Chadonnay), um espumante charmat, um moscatel, três espumantes brut tradicional (um com 12 meses de autólise e dois de 36 meses em contato com as borras, sendo um extra brut) e um suco de uva integral. Confira a relação completa abaixo:

>Maximo Boschi Cabernet Sauvignon – Safra 2000 | R$ 55,00
>Maximo Boschi Merlot – Safra 2000 e 2004 | R$ 78,00 | R$ 55,00
>Maximo Boschi Chardonnay - Safras 2004 (esgotado) e 2007 | R$ 42,00
>Espumante Maximo Boschi Brut Tradizionale – Safra 2009 | R$ 41,00
>Espumante Maximo Boschi Speciale BrutSafra 2007 | R$ 65,00
>Espumante Maximo Boschi Speciale Extra Brut – safra 2007 (lançamento) | R$ 65,00
>Espumante Moscatel BoschiSafra 2011 | R$ 28,00
>Espumante Brut Charmat – Safra 2011 | R$ 28,00
>Suco de uva integral Maximo Boschi (500 ml) | R$ 7,00

Lançamentos de 2012
>Maximo Boschi Cabernet Sauvignon – Safra 2004
>Maximo Boschi Chardonnay – Safra 2008

Lançamentos para 2013
>Maximo Boschi Merlot – Safra 2005
Site: www.maximoboschi.com.br.

Em tempo: Esta matéria foi publicada originalmente na revista Bon Vivant e no portal R7 (V de Vinho).

Um comentário:

  1. Belos vinhos, bela matéria! Parabéns Orestes.

    Epifânio Galan - Vinho SIM (www.vinhosim.com.br)

    ResponderExcluir