sábado, 18 de agosto de 2012

Vinho: embarque nessa viagem


#Instrumentos de trabalho: o vinho (no caso,
em garrafa), taça e o decanter. Ainda faltou o
indispensável saca-rolhas
Se você é um consumidor de vinho já sabe: não é simples ingressar no Mundo de Baco. Se você não é, justamente este deve ser o principal motivo – a dificuldade em ser um enófilo, como são chamados os amantes da bebida que resulta da fermentação alcoólica da uva fresca ou do mosto, com um conteúdo mínimo de 7% de álcool. Aí está a definição técnica de vinho. E já começou a complicação. Ao contrário da cerveja – paixão nacional – onde não há requintes de consumo (é só abrir a garrafa ou latinha, bem gelada de preferência), o vinho exige uma série de regras.

Primeiro, não é tão fácil abrir a garrafa. É preciso um abridor especial, de nome saca-rolhas. Existem aos montes por aí, de todos os tipos. Segundo, a rolha deve ser tirada com técnica e apuro, e depois devidamente cheirada. Feito isso, em que copo servir? O melhor é uma taça. E existe uma para cada tipo de vinho, incluindo os vinhos borbulhantes, mais conhecidos como espumantes (ou champagne, se vier da região de mesmo nome na França). Antes de sorver o primeiro gole, é aconselhável conferir a temperatura. Mais baixa (de 4ºC a 8ºC) para espumantes e vinhos brancos, mais alta (de 12ºC a 18ºC) para os tintos e fortificados.

Viu quantas etapas é preciso vencer para degustar um vinho? É ou não é complicado? E o pior, não acabou. Antes de cumprir todo este ritual, ainda é necessário comprar um vinho – tinto, branco, rosé, espumante, frisante, fortificado... E sabe quantos rótulos estão à venda somente na cidade de São Paulo? Mais de 22 mil. São Paulo é a terceira metrópole mundial com maior variedade de vinhos à disposição do consumidor, atrás somente de Londres e Nova Iorque. Só o Brasil tem pouco mais de 1.200 vinícolas, sendo a maioria (750) no Rio Grande do Sul, principal estado produtor. Mais a elaboração de vinhos e espumantes já se espalha por 10 estados país afora [ver mapa abaixo].

#Copello diz que o aprendizado
sobre vinho é infinito: "É por isso
que é tão estimulante"

Ou seja, em frente à adega de uma loja, na prateleira do supermercado ou, especialmente, com a carta de vinhos em mãos em um bar ou restaurante, as dúvidas são imensamente maiores do que as certezas. Mas quer saber, é por isso que o mundo do vinho é tão apaixonante. Não só pela diversidade, mas sobretudo pelo desafio do conhecimento.

“Apreciar vinhos é uma viagem por várias culturas”, afirma o consultor Marcelo Copello, escolhido como o jornalista de vinhos mais influente do Brasil pela revista Meininger´s Wine Business International (Alemanha), a mais respeitada publicação mundial dedicada aos negócios do vinho, com circulação em 40 países. “A primeira coisa a fazer é controlar a ansiedade e o medo diante de tanta informação”, aconselha. Copello diz que o consumo de vinho é algo para se fazer na companhia de alguém. “Você só vai aprender se ler, provar e viajar, tendo sempre alguém para compartilhar suas experiências”, afirma. Para ele, o melhor é ter um amigo conhecedor de vinhos ou um “guru”. “Alguém que te mostre os atalhos e as pedras do caminho desta viagem infinita e muito enriquecedora”, observa. Copello alerta que a complexidade do mundo do vinho é o seu maior prazer. “É infinito. Você nunca vai saber tudo. É por isso que é tão estimulante”. O crítico de vinhos, que dá cursos para enófilos pelo Brasil, fala que o consumo de vinhos é uma “brincadeira boa para a vida toda”. “É uma viagem inesgotável”.

E esta viagem deve ser, antes de mais nada, divertida. “Não tem porque ser penosa. Tem é que dar prazer”, argumenta Júlio César Kunz, engenheiro de alimentos pela UFRGS e mestre em gestão e marketing do setor vitivinícola pela Universidade Paris-Ouest (Nanterre – La Défense). “A minha dica é: esqueça as regras. Experimente vários rótulos e descubra os seus vinhos prediletos baseado apenas no seu gosto pessoal. Fuja daqueles que não lhe agradam. Vinho não é remédio, apesar de fazer bem para a saúde. Esta será a melhor viagem de autoconhecimento que você fará”, sugere.

Origem e preconceito
“Vinho é origem”, destaca Copello. “Cada rótulo é único porque ele é elaborado a partir de condições singulares das regiões onde é concebido”. Uma dica é começar pela sua casa. No caso, o Brasil. Segundo a Associação Brasileira de Enologia (ABE), os vinhos brasileiros ganharam mais de 2.500 medalhas em concursos internacionais nos últimos anos. Mesmo com tamanho reconhecimento internacional, os vinhos nacionais ainda sofrem de certo preconceito dos consumidores.

A cada ano, contudo, as barreiras caem. Geralmente após golpes dados por degustações às cegas (onde os rótulos não são mostrados aos degustadores). Foi assim que os vinhos californianos começaram a ter fama mundial, quando, em 1976, venceram uma degustação às cegas contra rótulos franceses no histórico Julgamento de Paris.  O mesmo tem ocorrido aqui no Brasil, na Expovinis, a maior feira do setor da América Latina, realizada todos os anos, no mês de abril, em São Paulo.

Em 2010, a Villagio Grando, de Santa Catarina, ganhou o prêmio de melhor Chardonnay da feira. Nesta mesma categoria, disputada por vinhos do mundo todo, a Cordilheira de Santana, da Campanha Gaúcha, já havia vencido em 2008, surpreendendo o júri de especialistas e o público em geral. A maior surpresa, porém, foi em 2008, na categoria custo-benefício, quando o vinho tinto Rio Sol Cabernet/Shiraz, que na época custava somente R$ 26, acabou ficando em 1º lugar na categoria vinhos tintos nacionais, empatado com o Marson Gran Reserva Cabernet Sauvignon. É dessa forma que os céticos em relação à qualidade do vinho brasileiro estão arrefecendo.



Vinho brasileiro
A diversidade climática e a criatividade do brasileiro, que tem uma capacidade singular de reinventar tudo, levou o País a ter uma vitivinicultura completamente original no mundo. A tradição europeia trazida ao Brasil por milhares de imigrantes italianos no século 19, aliada ao investimento em novas técnicas e inovação, resultou em algo inusitado. “Parece óbvio, mas nenhum outro País no mundo possui tanta diversidade em um só território. É por isso que os vinhos brasileiros têm a cara do Brasil”, diz o diretor-executivo do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin), Carlos Raimundo Paviani.
No Rio Grande do Sul (Serra Gaúcha, Campanha, Serra do Sudeste e Campos de Cima da Serra) e Sudeste (São Paulo e Minas Gerais), a produção é semelhante às clássicas regiões vitivinícolas europeias, com uma colheita por ano (no verão) e um período de repouso dos vinhedos (no inverno). No Nordeste, na semi-árida região do Vale do São Francisco, nos estados da Bahia e Pernambuco, surgiu uma novidade, as colheitas em meses sucessivos (até duas e meia) durante o ano. Em Santa Catarina, ainda há os vinhos de altitude, desenvolvida em ambiente com temperaturas extremamente baixas, e a possibilidade de colher uvas no gelo. Imagine só, tudo isso no Brasil.

Esta diversidade brasileira só existe aqui, pois quem possui viticultura em clima tropical não têm temperado e frio. “Em um só País, vários sabores, aromas e diferentes peculiaridades podem ser encontrados, dependendo da região onde a uva é produzida e o vinho é elaborado”, enfatiza Paviani. As diferentes características de clima, solo, tipos de uvas, sistemas de produção, vinificação e envelhecimento possibilitam a produção de vinhos com identidades variadas – com a marca da diversidade brasileira, mas com um estilo único.

Mesmo em um país continental, com 4 mil quilômetros de distância entre duas das principais regiões produtoras (Rio Grande do Sul e Vale do São Francisco), o Brasil consegue elaborar vinhos com características diferenciadas, mas com um estilo único – jovens, frescos, frutados e com presença moderada de álcool. Este estilo de vinho combina com a imagem e o modo de vida dos brasileiros, ou seja, aqui há pessoas e vinhos alegres e autênticos. Esta idiossincrasia do Brasil confere um enorme potencial para obtenção de produtos aptos a agradarem os diferentes paladares dos consumidores. São muitas as opções. Escolha a sua e divirta-se!

Em tempo: Esta matéria foi publicada na revista da Unimed, edição de dezembro de 2011; e na revista Bares & Restaurantes, da Abrasel, edição de abril e maio de 2012.

2 comentários:

  1. Olá Orestes, gostaria, por gentileza, de lhe encaminhar um material sobre a primeira loja online especializada em champagnes. Qual seu e-mail? Grato.

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  2. Olá, Rodrigo, meu e-mail é orestesdeandradejr@gmail.com ou orestesjr@pontodoc.net. Abraços, Orestes Jr.

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