domingo, 1 de julho de 2012

Bebendo estrelas... do Brasil!


#Estrelas do Brasil é palco para experimentos inovadores dos enólogos Irineo Dall'Agnol e Alejandro Cardozo

#A levedura encapsulada

Inovação. Esta é a palavra que melhor define a Estrelas do Brasil, projeto de “vinho de autor” dos enólogos Irineo Dall'Agnol e Alejandro Cardozo. É na Estrelas do Brasil que Dall'Agnol, enólogo da Embrapa Uva e Vinho, e o uruguaio Alejandro, da Piagentini, experimentam a elaboração de vinhos e sobretudo espumantes de alta qualidade a partir de práticas originais: como espumantes feitos pelo método tradicional (champenoise), com leveduras imobilizadas (encapsuladas) , que elimina a etapa da “remuagem”; ou espumantes elaborados de forma inédita com a uva Viognier, em um corte com Pinot Noir e Chardonnay. Eles ainda fazem um espumante 100% Prosecco, obtido pelo método charmat com uma única fermentação. E também um espumante 100% Riesling e outro rosé 100% Pinot Noir, de cor clara, salmão, conforme a tradição francesa da Provence. As novidades também contemplam um espumante barricado, ou seja, com o vinho base Chardonnay com passagem de 12 meses por carvalho.

#Vinho tinto elaborado por meio da Dupla Maturação
Direcionada, ao estilo dos amarones italianos,
mas comas uvas "secando" no próprio vinhedo
Nos vinhos, há um tinto elaborado pela técnica pioneira da Dupla Maturação Direcionada (DMD), isto é, a realização provocada de uma segunda maturação das uvas no próprio vinhedo, por meio do corte de parte dos ramos que sustentam os cachos. O resultado é uma forte passificação natural das bagas, muito similar ao famoso “amarone italiano”. “A diferença é que deixamos as uvas secarem no vinhedo e não em um ambiente controlado”, explica Dall'Agnol. Complexo e estruturado, este vinho deve ser decantado por no mínimo 10 horas antes do consumo, conforme recomendação dos enólogos.

O segundo vinho tinto da Estrelas do Brasil é o Dall’Agnol Superiore, da emblemática safra 2005, um blend das castas Cabernet Sauvignon, Merlot, Cabernet Franc e Tannat, que maturou 24 meses em barricas de carvalho americano e foi engarrafado – um lote de apenas 1.000 unidades – sem filtração. Este vinho recebeu a Grande Medalha de Ouro no V Concurso Internacional de Vinhos do Brasil, realizado em 2010. A honraria veio na disputa com 457 amostras de vinho de 15 países, degustados às cegas por especialistas nacionais e internacionais. Depois de 2.099 amostras degustadas nos cinco concursos internacionais realizados no Brasil, pela primeira vez a Grande Medalha de Ouro foi concedida no certame. “Foi um orgulho muito grande conquistar tamanho reconhecimento e provar mais uma vez que o Brasil pode e poderá elaborar grandes vinhos”, festeja Dall'Agnol. 


#Irineo Dall'Agnol caminha por seus vinhos conduzidos no sistema horizontal (latada) 
#Solo fértil, com muita matéria orgânica e com as
vinhas em perfeito convívio com outras plantas nativas 
 
Polêmica
Além de todas estas inovações, a maior delas está na contramão do que reza o senso comum: a elaboração destes rótulos de alta qualidade a partir do cultivo de uvas conduzidas pelo sistema horizontal (latada) e não pelo consagrado sistema vertical (espaldeira).

Os rótulos da Estrelas do Brasil são feitos com uvas cultivadas em dois vinhedos. Um de 9 hectares, no distrito de Faria Lemos, em Bento Gonçalves, entre o Vale dos Vinhedos, o Vale do Rio das Antes e o Vale Aurora, a 525 metros de altitude, onde 90% dos uvas estão erguidas no sistema latada. Em Nova Prata, também na Serra Gaúcha, com 12 hectares, 50% da área é conduzida em latada e a outra metade em espaldeira.


Dall'Agnol diz que “o sistema de condução da videira é só uma forma de sustentação do vinhedo”. “O melhor sistema é aquele que se adapta ao solo, ao clima e à planta”, afirma. O enólogo, que é formado em Ciências Agrárias e Agronomia, com especialidade em Enologia na Itália, rechaça a ideia de que o sistema de condução possa ser responsável pela qualidade final da uva e do vinho da Serra Gaúcha. “O que determina a qualidade final dos produtos é a soma de diversos fatores, como o clima, o solo e a sua interação com o homem”, ensina.

Ele diz que é inegável que a introdução de tecnologias prontas de outros países, em um primeiro momento, acelerou o crescimento da vitivinicultura brasileira. “Mas precisamos nos livrar de preconceitos, olhar mais para o nosso umbigo e acreditar que o brasileiro é criativo, temos nossas características próprias e podemos adaptar e criar produtos e tecnologias iguais ou superiores às existentes em outras regiões vitivinícolas do mundo”, defende.
#Dall'Agnol: "O melhor sistema é aquele que se adapta
ao solo,
ao clima e à planta"
Por esse motivo, os vinhedos da Estrelas do Brasil são completamente diferentes do que se vê na maioria dos países produtores e até mesmo na Serra Gaúcha. A maior parte dos vinhedos de uvas Vitis vinífera são conduzidos no sistema horizontal (o senso comum reza que o melhor sistema é o vertical). O espaçamento entre as plantas e as linhas é maior e recheado por várias plantas nativas (nos vinhedos tradicionais, não se admite “mato” nos corredores das vinhas). O solo é fértil, com muita e rica matéria orgânica (ao contrário do solo pobre e pedregoso que distingue a maioria dos vinhedos de Vitis vinífera). E a produção por planta é, no mínimo, o dobro de outros vinhedos que geram vinhos tops, alcançando 20 toneladas por hectare. “Respeitamos a natureza. Estudamos as condições da nossa terra e agimos com o objetivo de conseguir o melhor equilíbrio para a produção de uvas de qualidade”, declara.

Só 10% da uva produzida pela Estrelas do Brasil vai para elaboração de vinhos próprios. São aproximadamente 30 toneladas. A produção excedente é vendida para Chandon, Valduga, Piagentini, Salton, entre outras empresas. Conforme Dall'Agnol, a Serra Gaúcha é o local mais difícil para produzir uvas no mundo. Isso porque a cada 15 metros o solo pode mudar completamente. “O produtor daqui é um herói. Ele trabalha em condições adversas e consegue bons resultados. Sabe o que tem que fazer. Às vezes só não sabe explicar o que faz”, comenta.

#Novo vinho sob a técnica DMD será um
branco, da uva Riesling, que maturou,
pela 2ª vez, no próprio vinhedo  
A filosofia de “fazer produtos que não existem” segue viva na Estrelas do Brasil. A inovação desta safra é a elaboração de um vinho branco pelo método da Dupla Maturação Direcionada (DMD). As uvas, todas da variedade Riesling, ficaram 20 dias maturando, pela segunda vez, no próprio vinhedo, após ter ocorrido o corte dos ramos que sustentam os cachos. A intensa passificação natural das bagas por certo resultará em vinho complexo, de sobremesa. “Será um vinho único no Brasil”, anuncia Dall'Agnol. “Mas o vinho é que tem que falar por si. Não você falar dele. Espere pra ver”.

Direto ao consumidor

O radicalismo da Estrelas do Brasil no campo chega, agora, ao negócio. A comercialização dos seus rótulos, desde abril, acontece exclusivamente de forma direta entre o consumidor e o produtor, via site. “Encurtamos a distância, incentivando a compra no quilômetro zero”, diz Dall'Agnol. Para tanto, ele está construindo um varejo na propriedade – uma das vistas mais lindas da Serra Gaúcha, onde é possível observar 3 mil hectares de vinhedos em 360 graus. “Tem muita gente ganhando dinheiro no meio do caminho, enquanto o produtor recebe pouco e o consumidor paga muito”, acusa o enólogo.


#O time borbulhante da Estrelas do Brasil
Os fãs da Estrelas do Brasil tem dois caminhos a seguir: ou ir até Faria Lemos ou fazer a compra pela internet (ou telefone 54 99733032 / 8115-8667 / 99241016 / 3439-1089). A promessa é entregar os rótulos em até dois dias em São Paulo e cinco dias úteis em qualquer lugar do país. Compras acima de 10 caixas não pagam frete. “Incentivamos que as pessoas comprem em conjunto, com amigos e familiares”, recomenda o enólogo. Quem faz isso, ganha uma caixa grátis de produtos.
#Dall'Agnol brinda com o pôr do sol ao fundo e o varejo da Estrelas do Brasil em plena construção
Origem e futuro
A Estrelas do Brasil começou pelo caminho inverso: primeiro os vinhedos, depois a construção de uma marca e, por último, virá a vinícola. O varejo, aliás, chegará antes da vinícola, que ainda pode demorar de dois a três anos. O nome Estrelas do Brasil foi sugerido por Dall'Agnol, em 1992, na Associação Brasileira de Enologia (ABE). “Virou chacota”, lembra. No outro dia, o enólogo registrou o nome. Hoje, todo mundo quer a marca para os espumantes brasileiros. “Até posso ceder, mas o nome hoje tem valor”, afirma. A marca Montevino está guardada para “vinhos de combate”, mais fáceis e de giro mais rápido. E Dall'Agnol é o nome dos rótulos dos vinhos tops.
“Os vinhos de autor e o enoturismo podem ser a salvação da Serra Gaúcha. As grandes vinícolas estão todas buscando suas próprias áreas de cultivos. Os pequenos viticultores precisam ter seus diferenciais. Antes de elaborar bons produtos, queremos preservar este lugar de paz, de energia, em meio às mais belas montanhas e vales da Serra Gaúcha”, filosofa Dall'Agnol. 

#Lugar mágico: a Estrelas do Brasil está situada na mais bela vista da Serra Gaúcha, a 525 metros de altitude, no distrito de Faria Lemos, entre o Vale dos Vinhedos, o Vale do Rio das Antes e o Vale Aurora

6 comentários:

  1. Caro Orestes,
    Parabéns pela ótima reportagem sobre o Estrelas do Brasil e a "polêmica" opção deles em produzir uvas viníferas com o sistema de latada.

    Um abraço,
    Luiz Cola
    www.vinhosemaisvinhos.com

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  2. Obrigado, Luiz Cola. É uma honra te ter entre os leitores do meu blog. Abração e saúde!

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  3. Bela matéria!

    Epifânio Galan
    www.vinhosim.blogspot.com.br

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  4. Orestes,

    essa tarde/noite por lá foi muito bacana, não?

    precisamos repetir a dose. Mas dessa vez tenho que levar a Érika, senão é divórcio na certa!

    Saúde!

    Gil Mesquita
    www.vinhoparatodos.com

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  5. Muito legal, Gil. Bons vinhos, ótima companhia e papo inteligente. E sim, da próxima vez, a Érika e a Elis tem de estar conosco, para o nosso bem! hehe

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