terça-feira, 21 de maio de 2013

Porto Alegre ganha o primeiro restaurante 100% angus do Brasil


> Marmoreio: gordura entremeada ao músculo na carne
angus confere sabor, maciez e suculência 
O primeiro restaurante abastecido 100% com carne angus no Brasil fica em Porto Alegre. O Barba Negra, em atividade desde 2007 no tradicional bairro Bela Vista (Rua Tenente Coronel Fabricio Pilar, 791), passa a trabalhar exclusivamente com carne fornecida por frigoríficos associados ao Programa Carne Angus. “É uma experiência piloto que aos poucos será ampliada para todo o Brasil. No segundo semestre pretendemos chancelarmos outras duas casas, uma em São Paulo e outra em Porto Alegre”, afirma o Reynaldo Titoff Salvador, diretor do Programa Carne Angus Certificada. O projeto foi lançado no dia 6 de maio na capital gaúcha para imprensa e convidados em almoço no Barba Negra. 

“Isso é uma grande inovação, que já existe na Europa e nos Estados Unidos. E aqui no Brasil é uma novidade, que veio para ficar”, acredita Salvador. Segundo ele, o restaurante tem como benefício a oferta constante de uma carne de qualidade durante o ano todo. “A exposição da marca em todo o Brasil também é atrativa aos restaurantes. Muitos estrangeiros que vem ao Brasil, por exemplo, buscam experimentar e consumir a carne angus”, observa Salvador.

> Roberto Majot de Oliveira e Heloisa Ramos, irmãos
proprietários do Barba Negra, com a certificação 100% angus
Um dos proprietários do Barba Negra, Roberto Majot de Oliveira [na foto em anexo], explica que a casa tomou a decisão de aderir ao projeto 100% Angus depois de enfrentar problemas com fornecimento de carne. “Tínhamos que conviver com falta de regularidade na maciez da carne”, admite. Por isso a busca de um parceiro confiável. “O trabalho que a associação faz nos frigoríficos, cuidando a idade dos animais abatidos, o processo de desossa, entre outros procedimentos, contribui para o padrão que tanto desejamos”, comenta.

A carne angus é oriunda da raça inglesa de gado Aberdeen Angus, selecionada para produzir uma carne extremamente macia e saborosa. “Isso se deve ao marmoreio, ou seja, à gordura entremeada no músculo”, informa o presidente da Associação Brasileira de Angus (ABA), Paulo de Castro Marques. “Quando esta carne vai ao fogo e essa gordura se desmancha no calor, ela confere ao produto final, a carne assada, um sabor inigualável”, garante.

Padrão de qualidade
Criado há dez anos, o Programa Carne Angus visa integrar a cadeia do boi, por meio do acompanhamento dos animais na fazenda, desde a inseminação e a criação, assim como o confinamento, o desmame, o encaminhamento ao frigorífico, até chegar ao consumidor, seja por meio dos restaurante ou diretamente na casa das pessoas.

No começo, em 2003, 12 mil animais foram certificados em um único município, Bagé, na Campanha Gaúcha. No ano passado foram 230 mil animais angus certificados em todo o Brasil e este ano o número deve chegar a 300 mil animais em sete estados produtores que já fazem parte do programa – Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Tocantins e Goiás. Minas Gerais e Santa Catarina serão incorporados ao programa até o final do ano. “A missão do programa é provar a carne angus como sabor, como qualidade e conquistar a confiança do comprador”, diz Marques. “A integração entre produtor, indústria e o varejo traz ganhos para todos, sobretudo ao consumidor, e ainda mantém toda a cadeia saudável”, destaca.

Atualmente, o Brasil possui o maior rebanho de gado comercial do planeta, com 215 milhões de cabeças – sendo que 90% da produção da carne vermelha é destinada ao mercado interno. Com o aumento do poder de compra da população, houve um acréscimo de 40 milhões de consumidores de carne no país nos últimos seis anos. Todavia, segundo a nutricionista Licínia Campos, entre 40% e 50% dos abates são feitos em fundo de quintal. “Cada vez mais, as pessoas estão preocupadas com a saúde e com o bem-estar. Logo, estão mais exigentes com tudo o que consomem”, alerta a nutricionista. São estes consumidores que o Programa Carne Angus procura atender.  

Barba Negra passa a trabalhar exclusivamente com carne angus
em busca de garantia de um padrão regular de qualidade

domingo, 19 de maio de 2013

Vinhos de inverno

Minas Gerais e Goiás elaboram vinhos tintos finos de qualidade ao usar uma técnica inovadora – a dupla poda – que inverte o ciclo natural da videira, como acontece na região cafeeira de Três Corações

Na atual estação do ano, o outono, as videiras do Sul do Brasil estão descansando. Mas na região Sudeste, em uma experiência inédita, as vinhas estão em plena fase de maturação. Quando chegar o inverno, em junho e julho, elas estarão prontas para ser colhidas, enquanto as videiras do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, os dois principais estados produtores de uvas e vinhos do país, estarão em pleno repouso. “Enganamos a videira”, brinca o viticultor Murillo de Albuquerque Regina, com um sotaque mineiro inconfundível.


Murillo de Albuquerque Regina, da Epamig 
da Vinícola Estrada Real: "Enganamos a videira"
O pesquisador da Epamig (Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais) foi o primeiro a aplicar a técnica que altera o ciclo natural das videiras, por meio da dupla poda, com o objetivo de produzir uvas Vitis viniferas na região cafeeira de Minas Gerais, de 800 a 1.000 metros de altitude. Já ganhou seguidores na região Centro-Oeste do Brasil, como o médico Marcelo de Souza, em Goiás, e outros produtores de São Paulo e do próprio Sul de Minas, totalizando 150 hectares de vinhas implantadas com dupla poda – 40% delas em produção neste outono/inverno. O investimento, só em vinhedos, supera os R$ 8 milhões somados todos os projetos supervisionados pela Epamig em Minas e São Paulo. 

Inspirado pelo botânico francês Auguste Saint Hilaire, que em 1819 atravessou as montanhas do Sul de Minas Gerais, Murillo acreditou ser possível elaborar vinhos de qualidade na região Sudeste. Há praticamente dois séculos, ao percorrer as nascentes do Rio São Francisco, Saint Hilaire registrou em suas anotações “a notável superioridade das uvas colhidas no inverno com relação as do verão”.

Com a cedência de uma área na sua fazenda em Três Corações, no sul de Minas, nesta mesma região percorrida por Saint Hilaire, o médico ginecologista Marcos Arruda Vieira permitiu o início das pesquisas da Epamig, há mais de uma década, sob a coordenação de Murillo, engenheiro agrônomo e especialista em viticultura com PhD na Universidade de Bordeaux, na França. O projeto científico financiado pela Fapemig (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais) e pelo CNPQ (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), com apoio de órgãos públicos, já recebeu em torno de R$ 300 mil desde 2003.

> Vinhedos em espaldeira da Vinícola Estrada Real, no
Sul de Minas Gerais
A dupla poda altera o ciclo natural da planta, desviando o período de maturação da uva para o inverno. A técnica consiste no primeiro corte dos galhos da videira em setembro para formação de ramos e o segundo em janeiro ou fevereiro para produção. Este é o segredo que permite o surgimento de vinhos finos de qualidade no Sudeste e Centro-Oeste do país, tanto em Minas Gerais, como em Goiás e São Paulo. No Rio Grande do Sul e em Santa Catarina é feita uma poda só, de produção, em agosto ou setembro. A dormência dos vinhedos no Centro do país acontece no verão. Elas despertam via de regra depois do Carnaval por meio do uso do fitormônio Dormex (cianamida hidrogenada), um estimulante da brotação cujo objetivo é uniformizar a brotação das gemas, aplicado logo após a poda (tanto de formação quanto de produção). 

Assim, as fases de crescimento, maturação e colheita, que normalmente ocorreriam no período das chuvas, na primavera e no verão (de agosto a março), passam a acontecer no período de seca, no outono e no inverno (de abril a julho e às vezes até agosto). “Com o ciclo invertido, conseguimos as condições ideais de clima para a produção de uvas maduras e sadias, com dias ensolarados e secos, seguidos de noites frias”, explica Murillo.

Estrada Real
> Primeira Estrada Syrah 2010
Os testes em Três Corações, iniciados em 2001, contemplaram as uvas Syrah, Cabernet Sauvignon, Chardonnay e Merlot. A Syrah mostrou melhor desenvolvimento e produção e, por isso, a área foi ampliada para 10 hectares. Outra cultivar bem adaptada é a Sauvignon Blanc, com três hectares. Os vinhedos não são irrigados. Com resultados encorajadores no campo, Murillo convocou seus dois sócios numa empresa de produção de mudas de videiras – os franceses Patrick Arsicaud e Thibaud de Salettes, do Vale do Rhône e Pirineus – e junto com o médico Marcos Arruda Vieira fundaram, em 2007, a Vinícola Estrada Real, situada no polo turístico que envolve as cidades históricas de Tiradentes e Ouro Preto.

Três anos mais tarde, surgiu um vinho pioneiro – o Primeira Estrada Syrah safra 2010 – com passagem de 12 meses por barricas de carvalho francesas (70% do vinho) e americanas (30%) e um ano de garrafa. “Desde o início das pesquisas até o lançamento do primeiro rótulo, 12 anos se passaram”, recorda Murillo. A produção total é de 10 mil garrafas, recém lançadas no mercado, disponíveis em Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo (no Mercado Municipal). Para o próximo ano está previsto o lançamento de um vinho branco Sauvignon Blanc.

Assim se inaugura um novo conceito em elaborar vinho fino no Sudeste brasileiro, conhecido por produzir rótulos de consumo corrente, os populares vinhos de mesa, com uvas americanas ou híbridas. Conhecedor do clima e do solo argilo-arenoso de boa drenagem, profundo, da região do sul de Minas Gerais, Murillo defende que a inclusão deste novo terroir no cenário dos vinhos finos brasileiros parece possível, diante das possibilidades agronômicas e climatológicas de desviar o ciclo da videira. “Nossas pesquisas mostram que os vinhos obtidos de uvas colhidas no outono-inverno são superiores nesta região àqueles de uvas colhidas no verão e já surpreendem pela sua originalidade”, decreta.

A teoria e a prática mostram que bons vinhos, especialmente tintos, são elaborados a partir da colheita de uva em regiões com dias ensolarados, noites frescas e solo seco, sem umidade. Condições existentes em Bordeaux (França), Mendoza (Argentina), no Piemonte (Itália), Maipo e Aconcágua (no Chile), entre outras regiões. Aqui no Brasil, na Serra Gaúcha, as condições ideais para produção de uvas são afetadas pela ocorrência de chuva na época da colheita. Ao contrário do que se vê no Vale do São Francisco, especificamente em Petrolina, onde quase não chove, porém há pouca amplitude térmica entre o dia e a noite.

A experiência empírica de inversão do ciclo da uva já rendeu uma tese de mestrado, duas de doutorado e artigos em publicações especializadas, como na alemã "Vitis", uma das principais revistas científicas da viticultura. Anteriormente, a dupla poda era realizada somente com o intento de adaptar a colheita de uvas de mesa à demanda do mercado.

Novas regiões
Vários outros projetos têm sido implantados pela iniciativa privada em praticamente todas as macrorregiões geográficas mineiras e em escala variável, de 1ha a 50ha. Há novos plantios de Vitis viniferas em Alfenas, Andradas, Araxá, Andrelândia, Baependi,  Cordislândia, Delfim Moreira, Diamantina, Santana dos Montes, Santo Antônio do Amparo, Varginha, Santa Luzia, São João Batista do Glória, Três Pontas.

Além de Minas Gerais, a Epamig tem apoiado diretamente outra iniciativa de produção de vinhos finos em andamento na cidade de Espírito Santo do Pinhal, interior de São Paulo. Este projeto já possui área cultivada de 50 ha de videiras europeias e orienta-se a elaboração de vinhos tintos, brancos e espumantes de alto prestígio e com alta tecnologia tanto no manejo do vinhedo quanto na vinícola, que já se encontra instalada. Espírito Santo do Pinhal, Divinolândia, Itobi, Indaiatuba e Louveira são outras cidades paulistas com cultivos experimentais de uvas pelo ciclo invertido.

Goiás
Outro local improvável para se elaborar vinhos finos de qualidade – o estado de Goiás – também tem se beneficiado da descoberta da Epamig. O médico otorrinolaringologista Marcelo de Souza, proprietário da Pireneus Vinhos e Vinhedos, acaba de lançar a segunda safra de seus vinhos de inverno. Os primeiros dois rótulos de produção própria – o Intrépido (Syrah 2010) e o Bandeiras (Barbera 2010) – foram apresentados no ano passado e, agora, na Expovinis, foram lançadas as novas safras, de 2011, dos mesmos rótulos.

Médico Marcelo de Souza ao lado de seu vinhedo na Serra dos Pireneus em Goiás, no cerrado brasileiro
Souza diz que sempre foi um amante da Bebida de Baco. Em 2003, resolveu tornar seu sonho de elaborar bons vinhos em realidade. Natural de Goiânia, percorreu durante dois anos o estado de Goiás em busca de um terroir adequado para produção de uvas que pudessem gerar vinhos de qualidade. Em 2005, encontrou uma área metida em um vale, na Serra dos Pireneus, uma cadeia de montanhas situada entre os municípios de PirenópolisCorumbá de Goiás e Cocalzinho. A altitude no local é de 930 metros. Os vinhedos estão em um vale, cerca de 200 metros abaixo de montanhas que guarnecem o local. O solo é muito semelhante ao Sul de Minas: areno-argiloso típico de cerrado, ou seja, pobre, ácido, profundo.

Quatro variedades são cultivadas por Marcelo de Souza em quatro hectares de vinhedos: Barbera, Syrah, Tempranillo e Sangiovese. “Faço vinhos que respeitam este terroir e estas uvas são as que melhor se adaptam no cerrado brasileiro”, destaca o produtor. O plantio das primeiras mudas foi realizado em 2005. Em 2008, foram elaboradas as primeiras garrafas experimentais. Mas a safra inaugural foi a de 2010. O enólogo responsável é Marcos Vian, ex-Salton, que também trabalha para Basso (Monte Paschoal) e Sanjo, entre outras empresas.

“A localização geográfica foi determinante para a escolha da área”, conta. Segundo ele, a amplitude térmica nos vinhedos é um dos trunfos do lugar. Em junho e julho, faz uma média de 29ºC ao dia e 10ºC à noite. Em agosto, a temperatura vai de 32ºC (dia) para 12ºC (noite). E em setembro, a diferença é de 35ºC (dia) e 15ºC (noite). “Sem chuva alguma”, reforça. Por isso a necessidade de irrigação, ao contrário do que ocorre em Minas. A vitivinicultura é trabalhada em um clima tropical de altitude, com o ciclo da videira invertido. A safra de 2012 foi retirada dos vinhedos em agosto.

Mas Marcelo Souza discorda do uso da técnica do ciclo invertido como diferencial competitivo, considerando apenas uma ferramenta de marketing. “Pessoalmente não concordo com a designação. Acho uma tentativa marqueteira de definir os vinhos do cerrado. Nosso clima é tropical e, portanto, assim como no Vale do Rio São Francisco, podemos iniciar o ciclo da videira no momento que acharmos mais adequado à produção, e também podemos, se desejarmos, ter mais de uma safra por ano”, afirma.

Para ele, os vinhos de cerrado de altitude são especiais e diferentes porque há pelo menos quatro meses de clima seco com dias quentes e noites frias, assim como o verão do clima mediterrâneo de onde suscitaram as uvas Vitis viníferas na Europa. “Não há inversão de ciclo, apenas conduzimos a videira no sentido de aproveitar todo o potencial fenotípico que estas podem manifestar neste período seco, típico do cerrado de altitude”, defende.

Polêmica à parte, os vinhos de inverno do Sudeste brasileiro chegaram para ficar e, quem sabe, esquentar as noites dos consumidores mais exigentes. 

Em tempo: Esta matéria foi publicada na revista Adega do mês de maio de 2013.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Uma vinícola de mulheres no Pampa Gaúcho

> As três mulheres: a matriarca Hortência Ravache Brandão Ayub (C) com as filhas Manuela (E) e Vanessa (D)

Uma vinícola de mulheres na aridez do Pampa Gaúcho, dominado por homens a cavalo. É assim que ficou conhecida a butique de vinhos Campos de Cima, de Itaqui, na Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul. Tudo começou em 1975 com o casamento da carioca Hortência Ravache Brandão Ayub, 60 anos, com o médico e produtor rural José Silva Ayub, 61 anos. Com a vinda para o Sul, Hortência adquiriu como hábito o consumo de vinho. Mais tarde, por volta dos anos 2000, a paixão pelo vinho virou negócio, com a implantação de 15 hectares de vinhedos na propriedade de 1000 hectares da família em Maçambará, a 100 Km de Itaqui, entre São Borja e Uruguaiana. 

Criadores de gado e cordeiros, além de plantadores de arroz, o casal Ayub buscou a diversificação produtiva no vinho, tão presente nos últimos anos na Campanha Gaúcha, que já conta com 16 empreendimentos vitivinícolas. A escolha pela elaboração de vinhos e espumantes ocorreu – além da paixão e do glamour intrínsecos ao meio – por uma busca a uma atividade que envolvesse as mulheres da família e, especialmente, as esposas dos colaboradores da fazenda Campos de Cima, uma propriedade com mais de 150 anos de história. “Tínhamos mão de obra excedente que desejava ocupação. Então pensamos que as mulheres dos nossos peões poderiam ser muito úteis no cuidado do vinhedo, na colheita das uvas e na elaboração dos vinhos e espumantes”, recorda Hortência.
> Cordeiros em meio ao vinhedo: uma imagem típica
da nova Campanha Gaúcha

A delicadeza e o cuidado das mulheres com as uvas têm feito toda a diferença na Campos de Cima. Seus espumantes Brut e Extra Brut das uvas Pinot Noir e Chardonnay são comparados a bons champagnes. Sem exagero, pois apresentam a complexidade, os aromas e o sabor dos melhores rótulos da região francesa mais famosa do mundo. Com um diferencial: são frutados como só as borbulhas brasileiras conseguem ser. “Acho que a predominância de mulheres na nossa vinícola imprimiu um estilo elegante e afetuoso aos nossos rótulos”, observa Hortência. Na colheita, quando até 25 pessoas trabalham no vinhedo, a metade são mulheres. No escritório, 100% da força produtiva é do sexo feminino.

> Manuela, arquiteta, é quem projetou a moderna vinícola
As duas filhas do casal Ayub – Manuela (33) e Vanessa (36) – também estão diretamente envolvidas no negócio. Assim como Hortência, elas criaram o hábito de apreciar vinhos aos poucos e, quando se deram por conta, estavam apaixonadas. A vinícola essencialmente familiar ainda conta com o empenho dos genros, Pedro e Alexandre, que cuidam da parte administrativa e comercial.

Arquiteta, Manuela projetou a nova vinícola da Campos de Cima, um moderno prédio construído em uma área de 1.161 metros quadrados, que recebeu investimento de R$ 1 milhão. A inauguração está prevista para o final deste ano. “A vinícola é a transformação de um sonho em realidade”, diz Hortência, que procura imprimir uma filosofia purista na Campos de Cima, ou seja, expressar o terroir sem interferência enológica. “Para nós, uma boa uva somada à experiência de um bom enólogo é que origina o vinho”, ensina. “Elaboramos vinhos para o dia a dia, com bom custo-benefício, produzidos a partir de uvas próprias em pequena quantidade, criteriosamente selecionadas, tendo em vista a extrema qualidade”, ressalta Hortência. Os Tannats das safras 2006, 2008 e 2011 são seus melhores exemplares.

> Vanessa, advogada, cuida da parte
administrativa da vinícola

Na Campanha Gaúcha, principalmente na Campos de Cima, o terroir típico da região somado ao cuidado feminino com as uvas gera vinhos jovens, com mais fruta, cor e estrutura. Como as mulheres dos pampas – belas e fortes.

Saiba mais sobre a Campos de Cima

- Os vinhedos da Campos de Cima foram implantados de 2002 a 2004. A primeira safra foi em 2006, da uva Tannat, que gerou 5 mil garrafas de um vinho colocado no mercado em 2009.

- A Campos de Cima ainda cultiva outras 10 uvas (Ruby Cabernet, Chardonnay, Viognier, Pinot Noir, Merlot, Cabernet Franc, Cabernet Sauvignon, Shiraz, Malbec e Tempranillo), sendo que 1/3 são usadas para elaboração de vinhos próprios e o restante é vendida a produtores da Serra Gaúcha, como Casa Valduga e a Vinícola Geisse. 

- A venda é feita quase toda diretamente ao consumidor pelo site www.camposdecima.com.br

- Os preços dos vinhos e espumantes variam de R$ 18 a 36. Os principais compradores estão em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Brasília.

> Na cave da nova vinícola em Itaqui, Vanessa, Manuela e Hortência se sentem em casa

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Perini Qu4tro desce redondo

> Cab Sauvignon, Merlot, Tannat e Ancelotta
Uma garrafa quadrada. Quatro variedades de uva. Edição limitada de 4 mil unidades. Este é o Perini Qu4tro, vinho ícone da Vinícola Perini, do Vale Trentino em Farroupilha (RS), que só é elaborado em safras especiais, com a colheita de uvas de alta qualidade. A terceira edição da história do Perini Qu4tro (a primeira foi em 2005, lançada em 2007; e a segunda em 2008, que chegou ao mercado em 2011), acaba de ser apresentada na Expovinis 2013, que ocorreu de 24 a 26 de abril no Expo Center Norte, em São Paulo. Desta vez, a consagração que o rótulo recebia nas taças dos consumidores veio dos especialistas do Top Ten, que elegeram o Perini Qu4tro o melhor tinto nacional da Serra Gaúcha. Nada mais justo. Afinal, a voz do povo é a voz de Deus, neste caso representado por 12 jurados experts em vinhos na competição mais esperada pelo mercado de vinho no Brasil.

Pelo custo-benefício, o Perini Qu4tro da safra 2008 sempre esteve na minha lista dos três melhores tintos brazucas. Tanto que ainda tenho três garrafas desta safra, já esgotada na vinícola. Nunca tive a chance de provar o 2005. A nova safra – de 2009 – tem tudo para superar a anterior. Mas, hoje, ainda fico com a 2008. A safra 2009 tem muito a evoluir e terei o prazer de verificar isso de tempo em tempo. Sou, portanto, suspeito para falar deste vinho.

Por isso, vou convocar três especialistas em vinhos para referendar a qualidade do Perini Qu4tro. A frase usada para qualificá-lo foi a mesma: “É o melhor vinho tinto brasileiro que tomei este ano”. Os autores: Ricardo Castilho (Prazeres da Mesa), Mário Teller Jr. (ABS-SP) e Arthur Azevedo (ABS-SP). Assim encerro o assunto “qualidade reconhecida” e passo a outros temas sobre o mesmo vinho.

> A safra 2008 do Perini Qu4tro tinha mais Tannat e Ancelotta na assemblage

Sempre tive um bom número de garrafas do Perini Qu4tro na minha adega para encarar desafios do tipo “não gosto de vinho brasileiro” ou “até há vinhos brasileiros bons, mas são muito caros, acima de R$ 100”. Quando deparava com estes comentários vindos de amigos, jornalistas e críticos, sacava a rolha e abria o Perini Qu4tro. Pra mim, sua grande virtude sempre foi a de ser um vinho complexo e, ao mesmo tempo, redondo! Sempre foi um rótulo seguro para enfrentar as plateias mais desconfiadas ante a qualidade dos vinhos tintos brasileiros. Nunca decepcionou.

O reconhecimento – quase tardio – a este rótulo é um acima de tudo uma justa consideração a uma família batalhadora, inovadora e corajosa. A Perini nasceu há 42 safras sob o manto das iniciais do avô do seu Benildo – João Perini (JP). Até hoje um dos vinhos de mesa mais emblemáticos do Rio Grande do Sul. Também confiável e seguro para seus consumidores. Pois a histórica família Perini tem se reinventado rapidamente, sem medo do futuro e sem esquecer o passado. A evolução tecnológica e qualitativa implementada nos últimos anos impressiona os olhos atentos e surpreende os desavisados. E é só o começo.

A originalidade da Perini está na aposta convicta pelo sistema de condução em “Y”, que virou até a logomarca da vinícola. Me parece um acerto. Ainda mais quando sinto o resultado na taça.

Na primeira vez que estive em Bordeaux, há três anos, a primeira coisa que me chamou atenção foi a altura das vinhas, que ficam a dois palmos do solo. As videiras nanicas, como chamei, são impossíveis de ser reproduzidas na Serra Gaúcha, onde a umidade arrasaria as uvas em pouco tempo. Óbvio então erguer as videiras a mais de um metro do chão e ainda proteger as uvas com uma boa massa foliar, características intrínsecas do sistema em “Y”.

É assim que nasce o quarteto de castas que formam o Perini Qu4tro – Cabernet Sauvignon, Merlot, Tannat e Ancellotta. Interessante saber a mudança no corte das uvas da safra 2008 para 2009. Dá pra sentir a diferença na taça, mas o entendimento só vem com a revelação dos percentuais. Na safra de 2008, a assemblage do Perini Qu4tro contou com 35% de Cabernet Sauvignon, 30% de Merlot, 20% de Tannat e 15% Ancellotta. Em 2009, o vinho que está disponível hoje tem 53% de Cabernet Sauvignon, 32% de Merlot, 6% de Tannat e 9% de Ancellotta.
> 4: símbolo máximo de um ícone

O terroir se encarrega de explicar as mudanças. O que não muda é a qualidade deste vinho, uma homenagem ao símbolo 4, que identifica o uso de 4 uvas, as 4 estações estações do ano, as 4 fases da lua, os 4 elementos, os 4 pontos cardeais e os 4 símbolos da matemática. Como diz o diretor-presidente da vinícola, Benildo Perini, “a harmonia do nosso terroir é capaz de gerar um vinho complexo e ao mesmo tempo elegante e equilibrado”. Com esta base, o Perini Qu4tro fica sempre em pé.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

#cbe: Tomero Malbec, um vinho com a cara (rótulo) do dia 1º/5


O meu vinho do mês para a Confraria Brasileira de Enoblogs (#cbe) é o mesmo escolhido para o Malbec World Day - o Tomero Malbec, da Bodega Vistalba, importado com exclusividade pela Domno do Brasil. Não chega a ser o meu vinho do dia a dia, mas é sempre um rótulo seguro para qualquer noite da semana. Paguei R$ 36 na Costi Bebidas da Zona Sul em Porto Alegre. É a mais nova safra (2011) deste vinho. E assim apresentou-se na taça: jovem, macio e elegante, sem a característica e enjoativa madeira de muitos malbecs portenhos. É um vinho justo (pra não cair no clichê do “vinho honesto”).

A Bodega Vistalba é como se fosse a Casa Valduga da Argentina. Ambas são vinícolas familiares, focadas em um público similar (classes A e B), com vocação enogastronômica. Assim como a Valduga, que tem um restaurante de primeira classe, o La Bourgogne da Vistalba já foi premiado como o melhor restaurante de vinícola do mundo. Outra semelhança recai sobre a reputação dos enólogos Carlos Pulenta, uma verdadeira personalidade do vinho argentino, e João Valduga, um dos principais nomes da vitivinicultura brasileira.

O talento de Pulenta ganha destaque nos vinhos Corte A, B e C da Vistalba, também distribuídos no Brasil pela Domno. São rótulos soberbos, como os tangos argentinos. O Corte A, que tem Malbec como a uva principal (no corte que em algumas safras têm só Cab Sauvignon e em outras ganha a companhia da Bonarda), acaba de vencer o Top Ten da Expovinis 2013 como o melhor tinto do Novo Mundo. Ficou taças a frente de seus concorrentes, segundo os jurados.

A linha Tomero – de vinhos varietais – é menos tradicional e mais moderna. Está sintonizada com a preocupação dos argentinos em oferecer vinhos mais frutados e jovens aos consumidores, mostrando que das videiras de Mendoza também podem sair ótimos vinhos para a nossa atribulada rotina, para beber de calça jeans, moletom ou até de pijama, sem o terno e gravata dos grandes e pesados malbecs.

Esta é uma distinção adequada: enquanto a linha Vistalba Corte A, B e C é para tomar aos sábados e domingos, a linha Tomero é especial para os dias de semana. Até quem sabe uma sexta à noite, pois está longe de ser rápido e insosso.

A propósito, a imagem do Tomero no rótulo do vinho é um tributo ao trabalhador do dia a dia. Mais especificamente, o trabalhador responsável pela distribuição e o manejo da água destinada à irrigação dos campos, tarefa vital para o desenvolvimento do plantio da propriedade “Los Alamos”, situada na região de mesmo nome, na cidade de Tunuyán, próxima à Mendonza. É, portanto, um vinho adequado para este 1º de maio, Dia do Trabalhador.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Compre Vinhos prova que é possível ter lucro mesmo vendendo mais barato

> Time da Compre Vinhos tem na linha de frente
Rafael Zardo (E) e o técnico Vanderlei Luxemburgo
Criado há exatamente um mês, o site Compre Vinhos promete dar muita dor de cabeça à concorrência e ser um alívio ao bolso dos consumidores. Sem vergonha de revelar que trabalha com uma margem de lucro de até 100%, o empresário Rafael Zardo consegue exibir-se comparando os preços de seus vinhos ante a concorrência. Ficou a noite inteira da última segunda-feira (dia 8) fazendo isso no seu notebook, num encontro com a Confraria Bom Vin, na Vinum Enoteca em Porto Alegre. Em geral, os valores dos rótulos expostos no seu site são a metade dos seus concorrentes [ver comparação abaixo]. E todos são mais baixos do que seus rivais, numa média de 20% a 30% a menos. Os confrades presentes – a maioria jornalistas e sommeliers – ficaram de queixo caído. Ao invés de censurar a sua ganância em trabalhar com uma margem de até 100%, aprovaram a coragem de praticar preços muito menores do que outros sítios virtuais.

> Luxa: paixão por vinhos tintos
Os “preços baixos” praticados pelo site Compre Vinhos é o que mais chama a atenção no negócio, depois que esquecemos a curiosidade e a tietagem em torno do seu sócio-investidor mais famoso – o técnico de futebol Vanderlei Luxemburgo, ex-seleção brasileira, Real Madrid, Flamengo, Cruzeiro, Palmeiras, Atlético Mineiro, entre outros clubes, e atualmente no Grêmio. Luxemburgo chegou ao evento quando o quarto dos cinco vinhos estava sendo aberto [confira a lista completa abaixo]. E decretou: “Queremos democratizar o consumo de vinho no Brasil, cobrando valores mais compatíveis com o mercado internacional”, disse, carimbando tudo que seu sócio dizia. “É claro que queremos ganhar dinheiro e ter sucesso com o nosso negócio, mas para isso não vamos trabalhar com margens exageradas”, emendou.

O “milagre” da Compre Vinhos tem explicação. Primeiro, Rafael Zardo é representante para o Sul do Brasil das oito importadoras com quem trabalha no site (Vinho Sul, Franco Suissa, Ravin, Berenguer, Hannover, Da Confraria, De Vinum e Del Maipo). Isso lhe traz uma boa vantagem competitiva na compra dos rótulos estrangeiros. Mas este benefício não é exclusividade sua. Outros empresários do ramo também têm. Segundo, a Compre Vinhos não inclui o frete nas compras. Ou seja, o transporte não está embutido no preço do vinho. O site ainda não manda revista ou outros pequenos benefícios que fazem encarecer o custo final dos vinhos dos concorrentes. Entretanto, a grande e maior diferença é mesmo a margem de lucro!

Como digo há tempos, a alta carga tributária não é responsável, sozinha, pelos altos preços dos vinhos no Brasil. Como em qualquer outro setor, a combinação de impostos elevados, “Custo Brasil” e “Lucro Brasil” é o que nos faz pagar mais caro sobre qualquer coisa em comparação com alhures. Para não falar só de vinhos, um Honda City produzido em Sumaré, São Paulo, é vendido aqui por R$ 53,6 mil e no México a R$ 33,5 mil. Descontadas as diferenças de impostos, o City custa R$ 6,5 mil a mais aqui do que no México, graças ao “Lucro Brasil”.

Mais do que impostos escorchantes e logística deficiente, a culpa dos vinhos caros no Brasil é a tal da “mais valia” definida por Karl Marx – cujo pai, aliás, era proprietário de vinhedos no início do século 19 na região de Mosel, na AlemanhaPara ser direto: o problema é a margem de lucro colocada nos rótulos estrangeiros que chegam ao Brasil, um país onde o vinho custa de 10 a 30 vezes mais caro do que na origem. Quem viaja o mundo sabe. E não suporta mais esta realidade. Até um conhecido crítico de vinhos, que durante anos debateu comigo dizendo que os impostos eram culpados pelos altos preços dos vinhos no país, acaba de se render aos meus argumentos. Também ele não aguenta mais os lucros de quem vende vinho no Brasil. Não revelo seu nome porque o e-mail foi privado. 


“Nas conversas e perguntas de leitores e ouvintes, noto claramente que o alto preço dos vinhos não está diretamente associado à tributação. Eles até admitem que taxas e impostos são elevados, mas cada vez mais acreditam que é ganância dos produtores e importadores”, escreveu este famoso crítico, aliás, um profundo conhecedor de vinhos. Disse mais: “o consumidor brasileiro, na medida em que começou a viajar mais, se deu conta que o preço do vinho no Brasil, nacional e importando, é absurdo. Essa noção tem feito com que o consumo venha caindo em vez de aumentar. Dentro de uma visão otimista, sempre defendi a tese que quem gosta de vinho não vai deixar de beber. Baixa um pouco o padrão, mas continua comprando. Não está (mais) sendo assim. O brasileiro está até migrando para outras bebidas, caso das cervejas premium, cujo consumo e importações têm aumentado”.

É isso que a Compre Vinhos vem combater – o alto preço do vinho. Vale repetir: com uma margem de lucro de 100% em média! Mas seus preços são tão menores do que os concorrentes que os consumidores até acham uma pechincha. Vida longa a Compre Vinhos. E que os seus concorrentes sigam o mesmo caminho e baixem seus lucros para vender mais. Só assim o saudável hábito de consumir vinhos com moderação poderá crescer no Brasil, beneficiando a todos.

Compare os preços dos rótulos mais vendidos da Compre Vinhos com outros sites

=> LYM 2006 – R$ 57,90 na Compre Vinhos e R$ 133,00 (outros sites) | Diferença 128%

=> Ragazza Merlot 2007 – R$ 47,76 na Compre Vinhos e R$ 89,90 (outros sites) ) | Diferença 88%

=>Enrique Foster Ique Malbec 2009 – R$ 33,75 na Compre Vinhos e R$ 63,18 (outros sites) | Diferença 87%

=>Rayun Premium 2008 – R$ 94,37 na Compre Vinhos e R$ 176,64 (outros sites) | Diferença 87%

=>Gimenez Mendez Alta Reserva Arinarnoa 2007 – R$ 26,87 na Compre Vinhos e R$ 50 (outros sites) ) | Diferença 86%

=>Pinot Grigio Collezione 2010 – R$ 29 Compre Vinhos e R$ 47 (outros sites) ) | Diferença 62%
=>Quinta De Baixo Grande Escolha 2005 – R$ 97,27 na Compre Vinhos e R$ 158 (outros sites) ) | Diferença 62%

Vinhos degustados na Confraria Bom Vin e à venda na Compre Vinhos

=>I Latina Carmenere 2009 – R$ 99,00 na Compre Vinhos e R$ 134 (outros sites) | Diferença 35%

=>Gran Araucano Cabernet Sauvignon 2009 – R$ 129,31 na Compre Vinhos e R$ 166 (outros sites) | Diferença 28%

=>Perez Cruz Quelen 2008 – R$ 195,50 na Compre Vinhos e R$ 259 (outros sites) | Diferença 32,5%

=>La Croix de Saint Jean Lo Paire 2006 – R$ 69,57 na Compre Vinhos e R$ 140 (outros sites) | Diferença 101%

=>Viu Manent Vibo Malbec –
 R$ 167,33 na Compre Vinhos e R$ 215 (outros sites) | Diferença 28,5%

> Os cinco vinhos vendidos pela Compre Vinhos e degustados por integrantes da Confraria Bom Vin

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Malbec World Day: Tomero 2011 não é craque, mas joga um bolão

> Tomero Malbec 2011: o Mascherano da Vistalba,
cumpre sua função com competência e sobriedade
A uva Malbec é um símbolo tão forte para a Argentina como já foi Maradona ou é hoje Messi no futebol. Ela lembra o país do tango assim como o sol no centro da bandeira alvi-azul. Tanto que a uva ganhou um dia só seu para ser comemorado no mundo todo – é o Malbec World Day – o Dia Mundial do Malbec, cuja primeira edição foi celebrada em 17 de abril de 2011 com mais de 72 eventos em 45 cidades de 36 países. No ano passado, o número de evento dobrou, alcançando 68 cidades em 43 países ao redor do mundo. A expectativa é superar as 80 cidades e os 50 países este ano.

É a primeira vez que participo desta comemoração. Para este 17 de abril de 2013, saquei a rolha do Tomero Malbec, da Bodega Vistalba, importado com exclusividade pela Domno do Brasil. Paguei R$ 36 na Costi Bebidas da Zona Sul em Porto Alegre. É a mais nova safra (2011) deste vinho. E assim apresentou-se na taça: jovem, macio e elegante, sem a característica e enjoativa madeira de muitos malbecs portenhos. É um vinho justo (pra não cair no clichê do “vinho honesto”), que acompanhou minha noite de Copa Libertadores da América (São Paulo x Atlético Mineiro), combinando muito bem com um frugal cachorro-quente.

Dentro das similaridades usadas até aqui, a Bodega Vistalba é como se fosse a Casa Valduga da Argentina.  Ambas são vinícolas familiares, focadas em um público similar (classes A e B), com vocação enogastronômica. Assim como a Valduga, que tem um restaurante de primeira classe, o La Bourgogne da Vistalba já foi premiado como o melhor restaurante de vinícola do mundo. Outra semelhança recai sobre a reputação dos enólogos Carlos Pulenta, uma verdadeira personalidade do vinho argentino, e João Valduga, um dos principais nomes da vitivinicultura brasileira.

O talento de Pulenta ganha destaque nos vinhos Corte A, B e C da Vistalba, também distribuídos no Brasil pela Domno. São rótulos soberbos, como os tangos argentinos. A linha Tomero – de vinhos varietais – é menos tradicional e mais moderna. Está sintonizada com a preocupação dos argentinos em oferecer vinhos mais frutados e jovens aos consumidores, mostrando que das videiras de Mendoza também podem sair ótimos vinhos para o dia a dia, para beber de calça jeans, moletom ou até de pijama, sem o terno e gravata dos grandes e pesados malbecs. Esta é uma distinção adequada: enquanto a linha Vistalba Corte A, B e C é para tomar aos sábados e domingos, a linha Tomero é especial para os dias de semana. Até quem sabe uma sexta à noite, pois está longe de ser rápido e insosso.

A propósito, a imagem do Tomero no rótulo do vinho é um tributo ao trabalhador do dia a dia. Mais especificamente, o trabalhador responsável pela distribuição e o manejo da água destinada à irrigação dos campos, tarefa vital para o desenvolvimento do plantio da propriedade “Los Alamos”, situada na região de mesmo nome, na cidade de Tunuyán, próxima à Mendonza.

O vinho do meu Malbec World Day, sorvido numa típica noite de outuno na capital dos gaúchos, não foi nenhum Messi, mas se comportou com a competência sóbria de um legítimo Mascherano (volante argentino que já jogou no Corinthians e hoje está no Barcelona). O Tomero Malbec 2011 não é craque, mas joga um bolão!